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ENTREVISTA


João Pimenta Gomes @ Pedro Tropa: Matéria simples


João Pimenta Gomes @ Joana Horta


João Pimenta Gomes @ Joana Horta


Performance sonora. Plataforma Revólver @ Leonor Fonseca


Performance sonora. Plataforma Revólver @ Leonor Fonseca


Instalação Poly-Free. MAAT @ Vasco Stocker de Vilhena


Instalação Poly-Free. MAAT @ Vasco Stocker de Vilhena


Instalação Poly-Free. MAAT @ Vasco Stocker de Vilhena


Instalação Poly-Free. MAAT @ Vasco Stocker de Vilhena


Instalação Poly-Free. MAAT @ Vasco Stocker de Vilhena

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JOÃO RENDEIRO



MARGARIDA VEIGA




JOÃO PIMENTA GOMES


 

 

aaaaaaaaaaaah

 

Metavox, por João Pimenta Gomes

 

 

João Pimenta Gomes é artista visual e músico, tem uma prática e é formado em som e produção musical. Numa conversa anterior a esta entrevista, o João disse-me categoricamente que o seu processo criativo não tinha nada de poético – Não fiquei convencida. Foram-me dados a ouvir e ver materiais poéticos; esses mesmos, os do quotidiano, pop, que de tão prosaicos e se perscrutados com atenção estilhaçam quaisquer tentativas de captura: Hashtags, brands, géneros musicais, statements curatoriais laudatórios…O João precisa de limites – de metas. E nós também, para poder experienciar o mundo como é, i.e., como somos, sem artifícios, na nossa (in)significância, a que nos entretece – poeticamente. Nesta entrevista em formato de conversa, focámo-nos no instrumento que criou, o Metavox, dado a ouvir mais recentemente no MAAT e na Plataforma Revólver. Em A Poética do Espaço, Gaston Bachelard fala-nos do efeito curativo para a depressão da palavra vasto, presente na poesia de Baudelaire, na exata medida em que 'dá calma e unidade, abrindo um espaço ilimitado', mas também, e segundo o barítono Charles Panzéra, informado por psicólogos experimentais, porque não se pode pensar a vogal a sem que as cordas vocais se mobilizem…E quem canta – ainda que em surdina – seus males espanta. Segundo Bachelard também, a vogal a, 'corpo da palavra vasto, isola-se na sua delicadeza' – Ou, na sua fragilidade, como o João nos refere nesta entrevista a propósito da voz que dá corpo ao seu Metavox. Lembra-nos, também, sem a necessidade de inventar nenhum postneo, ou meta pop, que todos temos voz. É o que é. 

 

Por Madalena Folgado

 

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MF: Tudo hoje é imersivo. Vejo-te mais como um Neptuno analítico, será?

JPG: Em relação à questão do imersivo e do tempo e do que se sente, acredito que haja duas sensações diferentes, e eu tento estar nas duas; a do fazedor, naquele momento, porque sou eu quem está a performar, quem está a tomar as decisões; e, também, quem está a ouvir. Eu sou essas duas pessoas, porque muito da minha prática musical é baseada no ouvir, mais do que no tocar, até. E também isso na performace se reflete; eu estou a ouvir. Acredito que é comum a muitos músicos; é normal ouvir-se e desenvolver-se a partir do que vai aparecendo. Mas mesmo em atelier, a parte de composição e de novas peças vem de ouvir discos; de ouvir novos ou os mesmos que já ouvi milhões de vezes. Por exemplo, agora estou a estudar partes de guitarra, o som de amplificadores, e discos à volta dessa ideia que busco. Neste sentido, a curadoria dos discos é muito feita atemporalmente, não é uma questão de estar a ouvir discos dos anos 60, ou dos anos 70, ou de um estilo ou de outro. Tudo aparece organicamente pela minha própria curadoria; do procurar, e deste ‘tipo de som’ – ‘Este tipo de som’, só um tipo de som, de um amplificador específico. Às tantas posso estar a ouvir um disco dos Black Sabbath, dos Beatles ou de uma banda de rock de agora; dos Mars Volta, ou qualquer outro, e até desfasado da questão das próprias canções, da sua estética musical, ou até mesmo do que gosto. É uma audição muito orientada para o som. Neste caso, estou a falar do amplificador, mas podia ser uma questão de escalas musicais, de linguagem ou de improvisação musical – Vem muito de ouvir. E para ouvir é preciso estar disponível. Mesmo quando se está a tocar, é preciso estar-se disponível para ouvir. E, também, não permanecer apenas num exercício de criar novos sons; crio novos sons porque eles vem automaticamente dos anteriores, e aparecem através da ressonância da sala.  Por isso essa sensação do imersivo é um processo muito acordado, para mim, enquanto músico. Quando estou a ouvir, posso no entanto estar menos analítico, ainda que da minha parte haja sempre um encadeamento e análise do que estou a fazer, desconstruir para um novo. Numa performance mais longa passa-se por momentos de vazio, de esgotamento de ideias. E o mais bonito é que é a sala quem responde; que te devolve algo, uma ressonância…e apanhas aquele som. Talvez seja um jogo de busca. 

MF: Na tua performance da Plataforma Revólver, senti estares a fazer um desenho, em aberto, onde te ias demorando nas suas diferentes partes e possibilidades que se abriam, mas, em vez de uma caixa de 12 lápis de cor de marca branca, usavas uma caixa de 1200 – a saber, um Eurorack. Na resposta anterior tornaste claro que ‘desenhavas’ não apenas com o que tinhas dentro da caixa…

JPG: Estes sintetizadores e estas caixas que eu uso, que se vão transformando tanto nas peças como nas performances, têm uma forma, depois outra…Permitem condensar várias ideias e potencialidades técnicas que não conseguiria de outra maneira, ou teria de ter para tal um sistema muito mais complexo. Este na verdade é até um sistema, por incrível que pareça, simples para aquilo que eu quero pôr dentro das peças. Se, eu quiser estar a trabalhar uma parte de equalização, de som; algo que faça em estúdio com várias máquinas (instrumentos para processar…o computador, plug-ins, pedais etc.). Ali consigo ter o que preciso num sistema fechado, e posso tocar. É então uma grande ferramenta, a que eu mais uso e onde eu me sinto mais intimamente ligado. 

MF: Tessitura, tesselação e tecelagem. Rememoro a tua performance na Plataforma Revólver, de um modo um tanto sinestésico. Penso numa tessitura – enquanto o conjunto de sons que melhor convém a uma voz, i. e., a totalidade da nota mais grave à mais aguda – pelo facto de, como tens vindo a referir, teres gravado a Carminho a cantar a escala de Harry Partch, nota a nota, usando diferentes articulações (aaaahs, taaaahs etc.). Lembro-me de um de excerto de um texto de Rebecca Solnit, onde escreve algo como ‘no processo de crescer íntegro, tanto mais se juntam os fragmentos, mais se descobrem padrões’, i.e., modos de tesselação. E, por último, da sugestão das curadoras, Isabel Costa e Joana Krämer Horta, em colocar tapeçarias no espaço, e daí a tecelagem. Fazem-te sentido, estas associações?

JPG: Não tenho uma relação com a ideia de tecelagem, mas lembro-me logo de pessoas como o Morton Feldman – obcecado por tapeçarias –, que estão muito presentes na minha maneira de ver a música, e então sim, imagino que possam fazer sentido…E visualmente eu acredito muito mais nessa ideia de atrito até, em termos temporais. Não consigo pensar muito conscientemente como é que os diferentes momentos do trabalho se juntam, e se se juntam. Não sei se o que fiz na Plataforma Revólver se articula com uma exposição anterior, com a Poly-Free, com a própria performance ou com o que estou a desenvolver agora. O que eu senti foi que tinha de estreitar o meu ponto de partida. Não podia partir da bateria, e da guitarra, e do piano, e do sintetizador etc.. Eu tinha de partir do centro…

MF:…Eis então o Metavox…o instrumento que resulta de partires todos os sons (da voz gravada), transformando-os numa nova fonte sonora...

JPG: A voz sempre foi um instrumento que me interessou muito, para já, porque é um instrumento que eu também tenho (embora esta não seja a minha voz). É um instrumento que está presente no nosso corpo, que serve para muitas coisas: falarmos, expressarmo-nos, cantar…mas que é frágil. A ideia de ser frágil é muito importante. Tem-se muitos constrangimentos de dia a dia quanto se é cantor, cuidados a ter com o instrumento musical. Essa relação com o instrumento é muito bonita; é muito visceral. Ter como local de partida a voz fixou uma série de pontos. A própria ideia do mono, enquanto representação que se vai desdobrando, numa só fonte sonora, um só corpo, em profundidade, aproximação e afastamento. Todas essas passagens e metamorfoses do trabalho, ora numa instalação, ora numa performance, são muito…Não quero usar a palavra “experimental”…

MF:…Remete de imediato para algo fechado…e não tão experimental...

JPG: Pois... Não é uma brand, e talvez o "experimental" se tenha tornado numa…Mas penso nos processos de atelier como algo frágil, talvez como as tapeçarias de que falavas, e imagino que não haja dois tapetes feitos à mão iguais. Mesmo que queira a perfeição, seja lá o que isso queira dizer, tudo o que faço é feito com as mãos, e são também delicados nesse sentido. E é isso que estou a fazer; exposições feitas com as mãos, vulneráveis e que não estão fechadas. Apenas fiz um corte no que estava a fazer no atelier e mostro numa exposição. É óbvio que acredito ter uma substância, uma visão e que está pronto para ser mostrado. Vai voltar para aqui, e o meu trabalho continua, é um trabalho vivo; está em mutação, e nesse sentido talvez se identifique com essa ideia de tecelagem. Numa performance como a da Plataforma Revólver, experimento sons, construções musicais que quero ver se funcionam, muitas são boas ideias para desenvolver mais tarde, outras terei de abandonar…Tento novamente no atelier, redimensiono... Tento que isso aconteça também nas exposições que não sejam sistemas fechados hermeticamente, que sintas sons a saltar descontrolados e que estejam quase a partir.

MF: Tens, literalmente, que te expor à tentativa e erro…

JPG: Pois…e se calhar até questionar o mono que eu acredito tanto. Há muita coisa para explorar…Na Plataforma Revólver tinha mono, embora com duas colunas escondidas fora da sala. Interessava-me que a fonte sonora viesse de uma construção ligada à nossa imaginação como ouvintes e não da relação pré-concebida que temos  – ou que pelo menos eu tenho  – do nosso corpo e do posicionamento das colunas de som. Ali funcionou muito bem, devido à configuração e estrutura do espaço. Exercitei sons que estou a desenvolver e que remetem para a ideia do tempo interior das peças que é diferente do tempo exterior, podendo ambos ser compatíveis; nos sons que desenvolvo o tempo interior da peça, é o tempo que ela precisa para existir dentro de mim como ouvinte, onde o som aparece, se desenvolve e assenta tornando-se transparente, algo que deixe passar a luz. Os sons e as ideias musicais não podem ser apressados nem arrastados e perceber esse tempo é um processo de intimidade, de espera e de audição. No atelier posso-me demorar nessa busca e falhar no seu corte e desenvolvimento sem correr qualquer risco mesmo usando um processo analógico como uso, é um lugar seguro. Numa performance estou sem rede e isso exige um respeito pelo ouvir muito mais apurado.

MF: Na música está-se sempre a falar tempo…

JPG: Não consigo falar por mais ninguém a não ser por mim, mas a música que faço tem o tempo envolvido, seja em duração ou andamento. Numa performance a peça é activada por mim. Uma peça como a que esteve no MAAT é autónoma de mim. Monto-as no atelier, componho toda a música e todas as ligações e depois só precisam de ser ativadas, todos os dias, pelas pessoas do museu com um start. A sua parte generativa e a parte composta ficam decididas no meu atelier. Para isso acontecer, eu programo tudo. É muito parecido com escrever numa folha de pauta onde tu consegues ser super detalhado no que acontece ao longo do tempo da peça. Curiosamente, esta programação lida com questões interessantes de andamento. Para eu fazer um loop de 30 minutos tenho de programar a máquina para ler um determinado bpm que permita ao sintetizador comunicar entre si nos segundos certos que eu defini para os determinados “eventos”. Este bpm em nada está relacionado com o que se ouve, é só informação de leitura para o sistema. Ora se eu quiser fazer uma peça maior que 30 minutos, terei de desfasar o seu tempo de cérebro do tempo real pretendido. Fico obcecado com estes sistemas de divisão dentro do próprio ambiente do sintetizador.

MF: E são também questões que veem do programador, mas já lá vamos…

JPG: Sim, são questões de fazedura, que muitas vezes estão em pergunta/resposta com o que é a peça na sua base. Ter estreitado as questões no instrumento musical, a voz, foi um pouco como, por exemplo, partir sempre da guitarra. Acho incrível a dedicação de músicos como o Derek Bailey aos seus instrumentos, que desvendem as suas inquietações num exercício de intimidade profunda com um só instrumento. 

MF: Escreveste que, por exemplo, que ideia de drone não te interessa em si mesma; interessa-te antes, como mencionas, um “som evasivo”; sentir que o influencias, ao invés de apenas confirmar uma ideia preconcebida sobre a sua estrutura ou energia. Uma vez mais, trata-se antes de fazer variar a extensão e compreensão do que pode ser drone, não a condicionares ao encerramento de uma brand, ou género musical, certo?

JPG: Estaria a mentir se dissesse que o que faço vem da música drone e se o fizesse fecharia muito a perceção aberta que gostava que quem ouve tivesse. Tiro muitas notas sobre os discos que estou a ouvir e que talvez sejam influências mais ou menos presentes no que vou fazendo. Agora, aquilo é o que é. Mas espero que venha a ser mais, alguma coisa que ainda não descobri ou até que eu não sei que existe dentro do trabalho. Tento fazer sons que eu quero ouvir e criar sistemas de audição para que eles existam. Estou sempre à procura de ouvir. A única responsabilidade que eu sinto que tenho é de ser sério no lugar de onde tudo parte. De ser o mais livre de preocupações externas, para estar o mais concentrado naquilo que estou a fazer.

MF: Obrigada João. Isso é bonito e verdadeiramente importante. É curioso porque o meta de Metavox, e ainda que tenhas vindo a reforçar a tua necessidade de estreitar as tuas questões, tem um sentido de meta enquanto limite, mas é precisamente isso que abre o ilimitado para o(s) Outro(s); o fato de vir do teu profundo, da tua concentração. Então, meta, torna-se – ou metamorfoseia-se – verdadeiramente no tal elemento de formação de palavras grego metá, que significa além de…Os aaaahs, transportam-me para esse ilimitado.

JPG: Escolhi estes sons para ser algo à volta do som e não relacionado com uma palavra e que estivesse talvez mais livre de interpretação à partida. Por exemplo, se forem taaahs são muito mais ritmados, porque têm uma acentuação no te. E o aaaah permite fazer coisas mais arrastadas, assim como o eeeeh. Fiz isso com base em ideias de som, e na verdade as pessoas que ouvem têm outro mundo que eu não tenho, e isso é que é rico. Para mim a ideia de liberdade funciona imenso por clausura. Eu gosto de metas, de coisas que fecham, até da palavra deadline, não no sentido empresarial da coisa, mas do ponto que tu não passas.

MF: Libertação e não liberdade…

JPG: Sim, eu não quero o mundo todo…O Metavox é isso, é um instrumento que é fechado, no sentido em que parte sempre do mesmo sítio, mas que a sua expansão e a sua liberdade vem de uma procura sónica e de encontrar tecnicamente soluções para caminhar.

MF: Diz-se que a liberdade não é fazer-se o que se quer, mas querer o que se faz…o que parece contraintuitivo no nosso meio, onde ainda se procura validação fora e se promete liberdade total aos artistas…Ou, em geral, na nossa sociedade, em que a liberdade está associada a consumir tudo o que se pode e vorazmente…

JPG: Quando um artista me convida para ver uma exposição eu vou ver o trabalho dele. Não estou a tentar ver como é que o meu trabalho está no contexto do trabalho dele. E o contrário também acontece. Quando estou a mostrar o meu trabalho, não estou a mostrar o de outra pessoa. Agora, fico feliz que as pessoas fiquem incomodadas, que façam perguntas, que gostem ou não gostem…que venham falar comigo...

MF: Não sendo o sintetizador um instrumento com que meramente crias, no acontecer desse "processar" e do teu "influenciar" está toda uma consciencialização do espaço entre músicos. Pareces dimensionar artisticamente, em profundidade, esse espaço intersticial que a atenção do produtor (de formação) esculpe, oferecendo-nos (criando), um novo espaço espaço sonoro para habitar.

JPG: Há as questões tecnológicas que se usam para se gravar uma banda, do ofício próprio do produtor…microfones, compressão equalização, distâncias que eu consigo trazer para o meu trabalho através do Eurorack. Neste sentido, eu consigo importar ideias de mistura, captação; trabalhá-las e amplifica-las, num outro contexto completamente diferente. No sentido em que, é um processador e não um gerador de sinal. O sinal são as vozes [toca aaaaaah]. Tradicionalmente nos sintetizadores as fontes sonoras não eram samples, gravações. Eram ondas usadas como fonte sonora e isso é que produzia as notas. E eu não o uso osciladores, uso samples, gravações. No sintetizador componho e processo.

MF: Fala-nos um pouco da relação da tua música com a música pop.

JPG: Eu acredito que a música que eu faço está directamente ligada ao universo das canções a que de uma maneira geral podemos chamar de música pop. Música que tem uma forma específica e bastante experimentada. Por exemplo na intro da música ouvimos os primeiros sons e temos contacto com a produção, com o som, a harmonia. No primeiro verso, entra a voz, e continuamos agarrados a tentar descobrir a canção por dentro. Se no segundo verso a harmonia se repetir provavelmente a produção trará um novo som para que te prenda…chegas ao refrão e tens a catarse, e voltas novamente a verso, talvez tenhas uma bridge…A música pop vive de uma espécie de alimentação de açúcar. A música que eu faço não tem estas características. No entanto, estas ideias de composição e o tipo de pensamento à volta desta produção são o que me interessa. Esta busca de uma música que esteja em constante movimento é muito excitante para mim, pensar em sons constantemente mutantes e expressivos. Importo muito destes mecanismos para dentro do tipo de sistemas que construo. Os meus processos são ligados à ideia de desfazer. Se eu encontrar uma ideia musical, provavelmente deixo-a desenvolver durante um minuto e tento começar a parti-la logo a seguir; ir à procura de um novo caminho.

MF: Sentes que a tua música tem um tempo específico?

JPG: A questão é que acredito que a minha música não tem um tempo; não tem uma duração, acontece ao longo de. Podes ouvir 10 minutos e ires-te embora, como podes voltar muito tempo depois, o que faz com que esteja próxima da maneira como ouves discos; ouves a primeira vez, voltas a ouvir noutro ambiente completamente diferente, onde podes ser invadido por outros sons. E eu acredito que a música anda muito mais à volta dessa ideia de ser invadido por um ambiente diferente, por contextos diferentes. Não é um objecto estático gravada num CD e que está fechado. A música gravada está completamente viva. 

MF: E como é a tua relação com a ideia de palco?

JPG: Eu gosto de palcos e gosto de tocar ao vivo. Mas como músico, o que sempre me alimentou, foram os discos; o imaginar, o ouvir, a gravação…E a história da música está directamente ligada com a evolução tecnológica; conseguires gravar, passares das 4 pistas para as 8 etc.. Permitiu que se fizesse nova música que não podia ter sido feita antes. A gravação, pelo menos a nível comercial, é bastante recente e evoluiu muito rapidamente. Para tal foi preciso haver uma rotura com a ideia de palco, com a ideia da disposição da banda; deixar de pensar um disco como uma banda que está a tocar. Se tu usas uns headphones ou colunas – e isto é mais gritante com o stereo, porque com o mono era uma relaçao de aproximação ou profundidade – passamos a criar uma visão como se olhássemos para um palco; uma recordação fiel da bateria e voz ao centro, guitarras e teclados a ocuparem a imagem stereo, de estar envolvido na música – E tudo isto é ok. Naturalmente que o disco tem muito mais potencial do que ser apenas uma reprodução da ideia de concerto. A ideia de palco é substituída pelo ideal de que os sons habitam o espaço. Ou seja, criar um espaço que possa não ter a visualidade do mundo, que não seja algo que existe no mundo, que possa ser outro universo, um espaço imaginado.

Uma música com panorâmicas muito definidas (hard pan), como por exemplo a música The Birds do Peter Hammill, onde tens a voz no lado esquerdo e as guitarras do lado direito, funciona muito bem a ouvir numa sala com colunas num sistema stereo. Com as colunas, pões a tocar e não te interessa de que lado está a voz. A sala vai tornar tudo num só se estiveres a uma certa distância. Vais ter mais definição porque aquela coluna só vai ter uma pressão sonora, a da voz, e a outra coluna do lado direito, só a da guitarra…o som fica com outra liberdade porque todos os elementos de uma mistura ocupam espaço e a gestão desse espaço é muito sensível. Neste caso a sala em si vai permitir que esse espaço ficcionado seja habitado sonoramente. Isto só é possível desfazendo-se a ideia de palco.

MF: Na Plataforma Revólver fizeste, uma vez mais, por o desfazer, reconfigurando a ocupação daquele espaço, de modo a que a ideia de palco não se reinstale.

JPG: Talvez se tivesse umas colunas posicionadas à minha frente o público ficaria junto a mim, posicionado à frente das colunas, por ser o ponto de escuta mais comum. Ou então, se eu estiver de frente para um espaço vazio, as pessoas ficariam de frente para mim. Eu gosto de pensar que o processo de escuta é um acto consciente e não uma escolha standard, que posso ouvir de outro ponto, mais perto, mais alto, mais escondido, enquanto ando pela rua e que estas escolhas influenciam a música em si.

MF: Mas há uma intenção de provocação?

JPG: Sim, provocar essa escuta consciente e activa.

MF: E de muitas camadas…

JPG: Ás vezes ouço discos a lavar a louça, não ouço muitos porque normalmente a minha atenção é atraída para a música, mas eu ouço discos que ponho e vagueio na casa e ouço ressonâncias diferentes; ouço pormenores que não ouvi antes porque a minha atenção está focada noutro ponto.

 

 

 

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Esta entrevista em formato de conversa teve lugar no atelier do João Pimenta Gomes, em Lisboa, dia 17 de Junho de 2022.