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ENTREVISTA


Helena de Freitas. Fotografia: Juli√£o Sarmento


Casa das Histórias Paula Rego. Fotografia: Mário Martins


Casa das Histórias Paula Rego. Vista do interior, sala 2. © Casa das Histórias Paula Rego


Paula Rego, ‚ÄúO Urso Afogado‚ÄĚ, 1985. Acr√≠lico sobre tela. ¬© Casa das Hist√≥rias Paula Rego


Paula Rego, ‚ÄúMulher C√£o‚ÄĚ, 1994. Pastel sobre tela. Marlborough International Fine Art. ¬© Casa das Hist√≥rias Paula Rego


Paula Rego, “Vem a Mim“, 2001-2002. Litografia colorida. © Casa das Histórias Paula Rego


Paula Rego, “Vem a Mim“, 2001-2002. Litografia colorida. © Casa das Histórias Paula Rego


Paula Rego, ‚ÄúO Pr√≠ncipe Porco casa com a Terceira Irm√£‚ÄĚ, 2006. Litografia colorida. ¬© Casa das Hist√≥rias Paula Rego


Casa das Histórias Paula Rego. Vista do interior, sala 1. © Casa das Histórias Paula Rego


Casa das Histórias Paula Rego. Fotografia: Mário Martins

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HELENA DE FREITAS


Helena de Freitas foi nomeada directora da Casa das Histórias Paula Rego no passado mês de Fevereiro (dia 26), após um processo de negociação que se seguiu ao polémico afastamento de Dalila Rodrigues à frente do museu desde a sua inauguração. Nesta conversa quisemos saber como está a viver esta nova fase da sua carreira profissional, qual é o seu projecto para a instituição, quais os seus objectivos e ideias, e como pensa realizá-los. Falámos ainda de assuntos controversos como a presença e associação da galeria Marlborough à Casa das Histórias.
Historiadora e cr√≠tica de arte desde os anos 80, Helena de Freitas foi colaboradora regular no Expresso (Revista e Cartaz) entre 1989-1990. Foi assessora de direc√ß√£o no Centro de Arte Moderna Jos√© de Azeredo Perdig√£o da Funda√ß√£o Calouste Gulbenkian desde 1998. No CAM organizou in√ļmeras exposi√ß√Ķes, dedicadas entre outros a artistas como Joaquim Bravo, Ernesto de Sousa, Ant√≥nio Palolo, Pedro Calapez, Amadeo de Souza-Cardoso.


Cascais, 15 de Abril de 2010
Por Sandra Vieira J√ľrgens



P: Trabalhou durante muitos anos como curadora e assessora de direcção no Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão da Fundação Calouste Gulbenkian. Qual é a sensação que tem quando chega diariamente à casa das Histórias? Como está a decorrer o processo de transição?

R: √Č uma sensa√ß√£o de grande mudan√ßa de vida. Estava no Centro de Arte Moderna - FCG, uma institui√ß√£o que tem uma estrutura j√° muito bem constitu√≠da e uma m√°quina muito bem montada, que funciona numa grande estabilidade, que possui o grande peso da hist√≥ria. E agora entro num museu que √© de facto, novo. A sensa√ß√£o √© a de que se est√° a criar algo desde o in√≠cio, o que implica mais responsabilidade e tamb√©m mais dificuldades. Para mim, neste momento, seria f√°cil trabalhar no Centro de Arte Moderna. Este √© tamb√©m um processo pessoal de aprendizagem. Estou a fazer um trabalho na √°rea da programa√ß√£o, que j√° exercia no CAM mas de outra maneira, enquanto assessora. Agora √© uma responsabilidade diferente. E √© o prazer de estar a constituir uma equipa nova, de dar oportunidade de trabalho a um conjunto de jovens valores. Isso √© muito estimulante. Portanto, digamos que, n√£o √© bem um processo de continuidade, neste momento a minha vida sofreu de facto imensas altera√ß√Ķes.


P: Em termos do seu percurso pessoal, assistiu desde os anos 80 a v√°rias mudan√ßas na profiss√£o de conservador de museu e ao aparecimento da figura do curador ‚Äď que entre outras fun√ß√Ķes concebe as exposi√ß√Ķes com uma carga autoral e conceptual.

R: Quando comecei a trabalhar, nos anos 80, no Centro de Arte Moderna apesar de j√° fazer trabalhos de curadoria n√£o era esse o nome utilizado, as pessoas eram coordenadoras de exposi√ß√Ķes, mas na verdade o que se fazia j√° era muito o trabalho de curadoria. A primeira exposi√ß√£o que organizei, e que foi da minha inteira responsabilidade, foi a do pintor Ant√≥nio Dacosta (1987) mas n√£o se usava o termo que referiu. A passagem para esta concep√ß√£o de curadoria foi lenta. Hoje j√° se tem forma√ß√£o acad√©mica espec√≠fica, e uma perspectiva completamente diferente do que a fun√ß√£o √©, dos limites e das defini√ß√Ķes do trabalho de um curador. Na altura era mais emp√≠rico e abrangente, mas o trabalho fundamental estava l√°.


P: Após a negociação assinou contrato de dois anos com a Fundação Paula Rego e assumiu a direcção da Casa das Histórias. Como decorreu a negociação? Foi difícil atingir um consenso sobre as prioridades de ambos os lados? Quais eram os seus objectivos ideais?

R: A minha condição ideal, fundamental, foi a possibilidade de constituir uma equipa. Quando assinei o contrato já tinha a garantia de que a poderia constituir. Isso para mim foi essencial porque considero que um museu, com a ambição deste, tem que ter uma equipa estável. Não podemos subvalorizar em nenhum momento o trabalho de investigação face ao da educação ou da comunicação. São três vertentes que devem estar a par em qualquer instituição museológica. Por outro lado, também tive que assegurar a minha possibilidade de retorno à Fundação Calouste Gulbenkian, ao Centro de Arte Moderna, onde me mantenho funcionária. Mas isso também não foi difícil.


P: Em termos de equipa, as suas condi√ß√Ķes para alcan√ßar essa estabilidade significavam aumentar o n√ļmero de pessoas? Ou colocar pessoas-chave em certos lugares?

R: Significou colocar pessoas da minha confian√ßa j√° que eu herdei parte de uma equipa, mas formada por muito poucas pessoas, a maior parte das quais saiu com a Prof. Dalila Rodrigues. Sendo assim, n√£o se tratou de aumentar a equipa mas compensar os vazios criados com a sa√≠da de elementos-chave da anterior. Portanto tinha de garantir a capacidade de funcionamento do museu, em v√°rias √°reas, na √°rea de edi√ß√£o, na √°rea das exposi√ß√Ķes, na √°rea de produ√ß√£o e da investiga√ß√£o, tamb√©m.


P: Existiram impasses? Quais foram os que tiveram de ultrapassar?

R: Não muitos. Eu penso que tem mais a ver com a lentidão de alguns procedimentos camarários. Não foram propriamente impasses, o processo negocial evoluiu com alguma naturalidade. Foi lento, é verdade.


P: E um pouco misterioso?

R: Porqu√™? (risos) Normalmente as negocia√ß√Ķes nunca s√£o p√ļblicas!


P: Mas, de facto, o processo de negociação demorou algum tempo. Estendeu-se por quantos meses?

R: Cerca de tr√™s meses. N√£o foi assim tanto tempo. √Č certo que havia uma certa especula√ß√£o em torno de quem √© que seria a pessoa que iria ocupar a direc√ß√£o da Casa das Hist√≥rias mas a partir do momento em que fui contactada o processo decorreu com os naturais avan√ßos e recuos de uma negocia√ß√£o em curso.


P: A Casa das Histórias Paula Rego abriu a 18 de Setembro de 2009. Que análise faz deste percurso, do planeamento, da abertura e depois da não nomeação de Dalila Rodrigues?

R: N√£o gostava de falar de toda a pol√©mica que envolveu a sa√≠da da Prof. Dalila Rodrigues. Mas o que eu lhe posso dizer sobre o assunto √© que no tempo em que a equipa desenvolveu o trabalho, e nas condi√ß√Ķes em que o tinha para fazer, o fez bem feito. Esse trabalho ainda √© vis√≠vel, temos uma excelente exposi√ß√£o, muito bom trabalho editorial, uma frente de casa, materializada na loja, um servi√ßo educativo que funciona... para mim est√° correcto. Depois criaram-se dissid√™ncias, sobretudo em torno de aspectos de programa√ß√£o, mas isso j√° n√£o me diz respeito.


P: Na altura da negociação apresentou um projecto seu para a Casa das Histórias?

R: N√£o, n√£o apresentei formalmente nenhum projecto. Apresentei as condi√ß√Ķes em que gostaria de poder trabalhar e as linhas program√°ticas gerais.


P: Est√° agora a defini-lo?

R: Sim, tenho o meu projecto em desenvolvimento.


P: Quais s√£o as suas principais linhas?

R: Fundamental foi ter tido a cumplicidade de Paula Rego na aceitação e na compreensão desse projecto. Acho que, de alguma maneira, o meu projecto foi na direcção daquilo que a Paula Rego desejava. E penso que é muito importante a empatia, e de certa forma, os objectivos em comum, porque a artista tem de facto uma palavra a dizer neste projecto que não deixa de ser a sua casa.
Portanto, aquilo que eu estou a tentar desenvolver aqui na Casa das Hist√≥rias √© uma programa√ß√£o que ser√° feita sempre em torno da obra da Paula Rego, ou seja, ela ter√° sempre que estar presente e considerada como artista contempor√Ęnea, na rela√ß√£o com as suas ra√≠zes hist√≥ricas, mas fundamentalmente com o seu pr√≥prio tempo e o seu futuro. O museu dever√° ser uma plataforma de apresenta√ß√£o de trabalhos da artista (tamb√©m os seus trabalhos mais recentes) e de outros criadores que com ela se cruzam. Isso √© o que considero ser b√°sico. Haver√° uma abertura do museu, n√£o s√≥ a muitas das suas refer√™ncias, porque o universo de Paula Rego √© bastante vasto, mas tamb√©m √† arte contempor√Ęnea, porque acho que √© isso que faz sentido. Paula Rego √© uma grande protagonista da arte contempor√Ęnea e √© importante dinamizar essa linha, e criar uma programa√ß√£o articulada com o universo disciplinar, tem√°tico, narrativo da artista.


P: Hoje os museus como toda a arte actual deparam-se com o desejo intenso de novidade, metamorfose, novos nomes, conceitos, quest√Ķes. Como se situar√° perante esta exig√™ncia? Como explicou a Casa das Hist√≥rias ter√° uma programa√ß√£o associada ao vasto universo de refer√™ncias de Paula Rego. Ainda assim poder√° ser complicado manter uma programa√ß√£o rica e variada em torno do museu?

R: Não sei se é complicado. Acho que há muitas linhas de abertura que o trabalho de Paula Rego proporciona ou desencadeia, porque a relação do trabalho da artista consigo própria, com o seu país e com o seu mundo, é muito activa. Acho, portanto, que se abrem linhas de programação bastante vastas, de modo algum limitadas no tempo nem no espaço.


P: Em termos de organiza√ß√£o da exposi√ß√£o v√£o manter a linha cronol√≥gica? A cronologia tem o m√©rito de instaurar uma ordem de leitura bastante acess√≠vel ao grande p√ļblico mas √© tamb√©m muito limitada. Poder√£o existir outras perspectivas, outras refer√™ncias, para a apresenta√ß√£o da colec√ß√£o?

R: Neste momento, conseguimos um prolongamento desta exposi√ß√£o, sobretudo da exposi√ß√£o tempor√°ria, com os empr√©stimos da galeria Marlborough que s√£o de facto extraordin√°rios e t√™m trazido muito p√ļblico ao museu. Mas esta exposi√ß√£o vai fechar e no dia 1 de Julho iremos inaugurar uma grande retrospectiva de Victor Willing, o marido da pintora, um consagrado e reconhecido pintor ingl√™s, extraordin√°rio artista completamente desconhecido do p√ļblico portugu√™s. Esta exposi√ß√£o estava em prepara√ß√£o pelo seu curador, o historiador de arte Hellmut Wohl e programada at√© ao final deste ano e assim honrarei todos os compromissos assumidos. Consequentemente vai desaparecer este modelo inicial de apresenta√ß√£o ao p√ļblico da obra da Paula Rego. Para manter Paula Rego presente irei alterar o circuito do museu e sinalizar a presen√ßa da artista nas tr√™s √ļltimas salas no final do percurso expositivo, que podem ter uma entrada e uma exist√™ncia aut√≥nomas.


P: Vai ent√£o haver sempre um di√°logo entre as exposi√ß√Ķes e a colec√ß√£o.

R: Tentaremos que esse di√°logo exista sempre que for poss√≠vel e se fizer sentido, mas tentando tamb√©m que haja alguma flexibilidade neste espa√ßo. Pode ser necess√°rio introduzir pe√ßas da colec√ß√£o na sala de exposi√ß√Ķes tempor√°rias porque essa √© uma sala muito alta e profunda, mais adequada a grandes formatos. Pode ser necess√°rio apresentar exposi√ß√Ķes com pequenos formatos, ilustra√ß√£o ou v√≠deos, por exemplo, em que esse predeterminado espa√ßo de exposi√ß√Ķes tempor√°rias n√£o se revele o mais adequado. Ou poderemos flexibilizar o espa√ßo e introduzir na grande sala de exposi√ß√Ķes tempor√°rias obras da colec√ß√£o permanente. E a nova apresenta√ß√£o do museu ter√° certamente uma organiza√ß√£o diferente.


P: Tem plena autonomia de programação?

R: Tenho plena autonomia na programação.


P: Tem sido criticada a presença da galeria Marlborough, a entidade comercial que representa internacionalmente a pintora, enquanto fundadora e interveniente no conselho de administração. Como encara esse facto?

R: √Č um facto que eu encontrei estabelecido e com o que estou a lidar o melhor poss√≠vel porque at√© ao momento s√≥ encontrei vantagens. N√£o me sinto condicionada e penso que a galeria poder√° ser uma boa aliada at√© no contacto com outros artistas. Portanto, por enquanto, n√£o sinto qualquer problema.


P: Actualmente est√£o a ser questionadas algumas parcerias entre o sector p√ļblico e entidades privadas, nomeadamente com as recentes not√≠cias sobre o Museu Berardo. Considera que √© necess√°rio debater estas rela√ß√Ķes?

R: Na verdade n√£o quero pronunciar-me sobre o que me parece, cinjo-me aos factos: o que encontrei na Casa das Hist√≥rias foi esta realidade e vou tentar lidar com ela da melhor maneira porque n√£o a vou alterar. Estava tudo constitu√≠do, atrav√©s de um decreto-lei, quando eu aqui cheguei. E aceitei trabalhar nestas condi√ß√Ķes.


P: Como imagina este museu daqui a alguns anos? Pensa nisso?

R: O que estou neste momento a pensar √© o que o que √© necess√°rio para este museu funcionar agora e daqui a uns anos... Estou exactamente a pensar em criar estruturas de estabilidade para que ele se possa afirmar e fixar uma identidade. O trabalho que foi desenvolvido at√© agora foi a organiza√ß√£o de uma exposi√ß√£o e, portanto, tudo o resto est√° por fazer. A quest√£o da afirma√ß√£o da identidade, o que √© a Casa das Hist√≥rias Paula Rego, est√° por fazer. Neste momento √© isso que me preocupa, definir o perfil √† medida que a programa√ß√£o se for desenvolvendo, bem como as actividades, que s√£o actividades que ter√£o de ser concebidas na √°rea educativa, paralelamente a um programa para o audit√≥rio, outras na √°rea das edi√ß√Ķes. Ou seja, criar uma defini√ß√£o para este museu. √Č esse o caminho. E tamb√©m criar o centro de documenta√ß√£o que est√° estatutariamente previsto dedicado √† investiga√ß√£o e ao estudo da obra da Paula Rego e √† sua √°rea de abrang√™ncia, que, como sabemos, √© bastante vasta. Tudo isto est√° por fazer e portanto, sem essas estruturas a funcionar, √© dif√≠cil imaginar um futuro. √Č claro que eu devo ter uma vis√£o optimista para o futuro e imaginar que tudo isto vai funcionar em pleno.


P: O caminho será feito no equilíbrio entre a visibilidade para o exterior e a investigação?

R: Considero que tem de ser uma via articulada. Por um lado, garantir a visibilidade das obras da Paula Rego porque s√£o muito estruturantes para o p√ļblico. Garantir e colaborar em projectos internacionais em que os pr√≥prios empr√©stimos da Casa das Hist√≥rias sejam relevantes enquanto colec√ß√£o, para n√≥s tamb√©m √© fundamental. Vamos gerir a presen√ßa da Paula Rego no museu mesmo que se tenha de negociar colec√ß√Ķes particulares, dep√≥sitos, empr√©stimos, ser√° necess√°rio garantir essa presen√ßa, articulada com programas de estudos e de investiga√ß√£o e com uma din√Ęmica expositiva na sua √°rea tem√°tica, disciplinar, narrativa. Creio que √© a melhor forma de garantir a din√Ęmica do museu. Um museu n√£o excessivamente centrado na Paula Rego, mas em que a Paula Rego seja o eixo a partir do qual se v√£o desenvolver v√°rias linhas de programa√ß√£o.


P: Estão a desenvolver contactos com museus estrangeiros, têm uma rede privilegiada?

R: Sim, neste momento estamos a estudar parcerias com v√°rios museus e ser√£o privilegiadas evidentemente as rela√ß√Ķes com a Gr√£-Bretanha. Inclusivamente estamos a estudar a possibilidade de expor nestes pequenos espa√ßos tempor√°rios artistas que tenham sido ou sejam bolseiros, ou participantes em programas de resid√™ncia art√≠stica na Gr√£-Bretanha, mesmo que n√£o se cruzem com o universo formal da Paula Rego. Vamos saber o que eles fizeram, mesmo que seja criando situa√ß√Ķes de contraste. Creio que √© uma forma de criar v√°rios caminhos.


P: Qual tem sido a recepção deste projecto e do edifício?

R: Acho que √© excelente. A figura da Paula Rego tamb√©m √© muito magn√©tica, atrai muito p√ļblico. A presen√ßa do p√ļblico mant√©m-se muito forte.


P: E do meio mais especializado?

R: Tamb√©m. Mas isso tamb√©m tem que ser estimulado. N√≥s n√£o vamos eternizar esta exposi√ß√£o. √Č preciso gerir a presen√ßa de Paula Rego de muitas maneiras, lidando com o universo dos empr√©stimos, criando novos modelos expositivos, articulando com a realidade contempor√Ęnea ou passada, ou ainda com a multiplicidade de todas as suas fontes.


P: Como ser√° o calend√°rio expositivo? As inaugura√ß√Ķes acontecer√£o na Primavera e no Outono?

R: Vou tentar criar mais ritmo na apresenta√ß√£o de exposi√ß√Ķes e por isso terei necessidade de flexibilizar o espa√ßo expositivo. A exposi√ß√£o de Victor Willing vai ocupar uma grande parte do museu porque apresenta um conjunto de obras de grandes dimens√Ķes e que precisam de espa√ßo de respira√ß√£o. Para articular a presen√ßa da Paula Rego com esta mostra vou apresentar as obras da artista nas tr√™s √ļltimas salas, alguns trabalhos menos conhecidos do seu percurso, do final dos anos 60 e 70, mas que convivem bem com o sil√™ncio e a densidade da obra de Victor Willing.


P: Têm uma equipa curatorial fixa, da casa? Vão trabalhar com curadores externos?

R: Temos uma equipa e ficamos abertos a curadorias externas, o que se poderá revelar uma boa plataforma de criação de projectos e de acolhimento, quer de artistas quer de curadores.


P: Que opini√£o tem do edif√≠cio, da arquitectura do museu? Quais s√£o os desafios que esta arquitectura coloca em termos do desenho de exposi√ß√Ķes?

R: O espa√ßo √© maravilhoso em termos de desenho de arquitectura e √© um privil√©gio trabalhar neste espa√ßo t√£o sedutor. Acho tamb√©m que √© necess√°rio, introduzir pequenos desvios e pontua√ß√Ķes no percurso das exposi√ß√Ķes em fun√ß√£o de uma programa√ß√£o que desejo que seja mais viva. Temos que olhar para o espa√ßo e adapt√°-lo a um programa de mostras mais din√Ęmico: √© necess√°rio flexibilizar os caminhos e as escolhas dessas exposi√ß√Ķes.


P: Às vezes sente-se alguma dificuldade de recuo em relação às obras.

R: Este museu foi um pouco pensado como se tivesse sido desenhado s√≥ para esta exposi√ß√£o e agora vamos ter de o pensar para uma din√Ęmica mais efectiva. Actualmente o circuito expositivo segue uma √ļnica direc√ß√£o e n√≥s vamos tentar que se consiga criar outra agilidade na din√Ęmica do pr√≥prio percurso. Sendo que n√£o podemos alterar o espa√ßo fisicamente.


P: Qual é a sua relação com a obra de Paula Rego?

R: √Č uma rela√ß√£o muito estimulante, sempre gostei muito da obra da Paula Rego e acho que lan√ßa muitas pistas. N√£o √© um trabalho que avance em linha recta, tem muitas passagens, algumas delas abruptas. √Č uma artista que est√° em permanente reinven√ß√£o do seu pr√≥prio trabalho e isso a mim tamb√©m me agrada muito.


P: Acha que a obra de Paula Rego tem sido suficientemente estudada em Portugal?

R: Não, apesar da visibilidade mediática que felizmente tem. O trabalho de um artista nunca é suficientemente estudado. Ainda há muito por fazer.


P: Mas não acha que por vezes, em relação a figuras muito representativas e respeitadas, como é a Paula Rego, se cria um certo receio em não se dizer nada de novo?

R: Sim, talvez haja uma certa sensação de que os principais trabalhos já foram feitos.


P: Sim, que é muito difícil inovar e trazer novas perspectivas de leitura.

R: Mas isso é um equívoco. Há muita coisa para fazer no estudo da Paula Rego. Muita coisa para fazer e abrir esse espaço a novos investigadores, isso é fundamental. As perspectivas de abordagem são infinitas.


P: O centro de estudos que prevê vai permitir isso?

R: Sim, n√≥s neste momento estamos a tentar avan√ßar numa frente de trabalho muito ampla. Estamos a concluir o levantamento de obras da Paula Rego em colec√ß√Ķes p√ļblicas, e a desenvolver essa pesquisa nas colec√ß√Ķes particulares, porque √© importante a localiza√ß√£o do seu trabalho. E estamos a acolher projectos de estudo e de trabalho sobre a artista, para al√©m dos projectos em curso da pr√≥pria equipa. Esse tal centro de estudos ainda n√£o tem espa√ßo f√≠sico aqui no museu, como tamb√©m n√£o tem espa√ßo f√≠sico o servi√ßo educativo. √Č uma condicionante do pr√≥prio edif√≠cio que a seu tempo espero possa ser resolvido.


P: Mas esses espaços estão a ser pensados?

R: Sim, est√° em estudo, porque um museu sem essas estruturas dificilmente poder√° crescer e cumprir a sua miss√£o. √Č preciso espa√ßo para acolher tudo isso. A ideia do museu √© uma ideia ambiciosa, encontrei aqui essa ambi√ß√£o. Mas tamb√©m √© preciso ter meios f√≠sicos para a sua realiza√ß√£o.


P: Mas esse centro educativo e o de investiga√ß√£o faziam j√° parte do projecto original ou n√£o tinham sido pensados antes? √Č estranho que se tenha constru√≠do um museu de raiz sem contemplar, por exemplo, um espa√ßo dedicado ao servi√ßo educativo?

R: Poderia estar pensado, mas chego aqui e o edifício que tenho é este. E é preciso ir avançando com ele.


P: Que concep√ß√£o tem de museu? O que √© mais importante num museu de arte contempor√Ęnea? Recentemente, o novo director do Museu Nacional de Arte Antiga, Ant√≥nio Filipe Pimentel, expressou numa entrevista ao jornal P√öBLICO, a seguinte ideia: ‚Äúo museu √© um palco‚ÄĚ. Deve saber-se como mostr√°-lo, sem deixar de estudar e conservar o acervo.

R: Sim, o museu √© um palco mas um palco implica tamb√©m um espa√ßo de bastidores, teia, camarins, ‚Ķ e sem esse suporte o palco pode ruir. Acho que √© preciso criar situa√ß√Ķes de cruzamento, do palco e dos bastidores, ou seja criar exactamente as estruturas de que lhe falei. √Č necess√°rio encontrar o equil√≠brio entre o estudo da colec√ß√£o e a visibilidade do museu. A ideia de festa e do acontecimento √© muito importante mas tem que ser sustentada. Necessitamos da √°rea de investiga√ß√£o. Eu sou investigadora e portanto para mim √© dif√≠cil passar sem isso. Para mim √© importante constituir uma base de dados sobre a artista independentemente de tudo o que se fa√ßa com ela. Para se poder avan√ßar sobre o trabalho da artista √© necess√°rio pensar em novos modelos de apresenta√ß√£o, jogar com outros artistas e estudar outras situa√ß√Ķes de espect√°culo que com ela se cruzem. O espect√°culo tamb√©m pode e deve acontecer, a √≥pera, o teatro, o cinema, enfim, h√° um conjunto de ac√ß√Ķes que fazem sentido articular com a figura e a obra de Paula Rego.


P: Qual é a sua opinião acerca da política deste ministério em relação aos museus e sobre as mudanças que se estão a planear?

R: Gostaria de poder ver no terreno a concretização dessas medidas, que do ponto de vista teórico e estratégico me parecem interessantes. Mas a realidade museológica é muito complexa e com necessidades e exigências específicas. Gosto particularmente da afirmação de que a cultura é um instrumento essencial para o desenvolvimento global do país. Acredito nisso com muita convicção.


P: Mas acha que estamos a iniciar uma nova fase na política para os museus?

R: Penso que sim, que há essa expectativa de mudança. Penso que pode ser positiva. Mas também tem de ser cautelosa.


P: O que é que faz mais falta aos museus? Que opinião tem do panorama dos museus no nosso país?

R: Penso que o panorama dos museus evoluiu muito e bem nos √ļltimos anos e n√£o estou deceptiva em rela√ß√£o a isso. Acho que t√™m sofrido uma muito boa evolu√ß√£o, sobretudo na comunica√ß√£o com os p√ļblicos. A dissemina√ß√£o de museus por autarquias fora dos centros pol√≠ticos √© essencial, mas n√£o basta inaugurar √© necess√°rio sustentar o que se inaugura. Acho perigoso o caminho que fecha as colec√ß√Ķes nas suas reservas e impede um contacto directo das obras com o p√ļblico. Visibilidade, estudo e comunica√ß√£o s√£o conceitos chave. Se essa comunica√ß√£o se dirigir para um p√ļblico amplo e se esse p√ļblico crescer com isso, melhor.


P: A preocupa√ß√£o com a comunica√ß√£o com o p√ļblico foi tamb√©m essencial para que a exposi√ß√£o ‚ÄúAmadeo de Souza-Cardoso. Di√°logo de Vanguardas‚ÄĚ (FCG, 2006) tivesse sido um caso de sucesso.

R: Foi de facto uma exposição e um projecto que correu muito bem, mas não tem que ser um modelo. Era a exposição necessária para criar uma rede de atenção internacional que a obra de Amadeo precisava. Valorizo muito o trabalho de investigação e pesquisa que se faz no museu, como também o estudo dos modelos de apresentação desse trabalho de pesquisa. Não podemos estar fechados nos gabinetes a estudar sem criar plataformas de visibilidade desses projectos. Isso é fundamental.


P: Neste caso, qual √© o seu p√ļblico alvo? Para quem √© que est√° a trabalhar neste momento?

R: Neste momento estou a tentar organizar a apresenta√ß√£o destes projectos para um p√ļblico o mais abrangente poss√≠vel. Sei que h√° um p√ļblico muito importante para a Casa das Hist√≥rias, que √© um p√ļblico jovem, escolar, mas n√£o tem de ser necessariamente s√≥ esse. Gostava que um p√ļblico mais especializado pudesse sentir-se reconfortado na visita ao museu e em rela√ß√£o ao programa de apresenta√ß√Ķes, de acontecimentos, de edi√ß√Ķes que oferecemos.


P: Encontra espaço para isso?

R: Estou a procurá-lo, a construí-lo.




Casa das Histórias Paula Rego
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