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ENTREVISTA


Suzy Bila. ©Bia Anjius


'Sem Limite 2', 2017 | acrílico sobre tela 215x312 cm | Exposição AL.BA | ©Alice Leandro


Entrevista a Suzy Bila, 1996, por J. Sixpence | Jornal Domingo - Moçambique


“Ecos do Passado”, 2018 | acrílico sobre tela, 178x210 cm | Plataforma Revólver - Independent Art Space | Imagem: Mandy Fraga


“Dança ao vento”, 2020 | acrílico sobre tela 162x210 cm | Plataforma Revólver - Independent Art Space | Imagem: Mandy Fraga


'Há dia em que os pássaros descem à terra', 2017 | acrílico sobre tela, 216x172 cm | 'Quero falar-te mar' no Centro Cultural da Figueira da Foz


Fotografia do arquivo da artista


Fotografia do arquivo da artista


Fotografia do atelier da artista


'Há dias em que a alma precisa de um adversário à medida', 2018 | acrílico sobre tela, 210x410 cm


'Liberdade', 2018 | acrílico sobre tela, 210X260 | ©Alice Leandro


'Horizonte', 2014 | Acrílico sobre tela, 128x141 | Bienal internacional de Macau 2018


Susy Bila


'Há uma aldeia memorável', 2014 | óleo sobre tela, 197x142 cm | Exposição coletiva na Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa





'Porquê?'| Exposição Nua e Crua | Centro Cultural Brasil, Moçambique


'Sem titulo' | Exposição individual Nua e Crua | Centro Cultural Brasil, Moçambique

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MARGARIDA VEIGA




SUZY BILA


29/04/2022




A pintura de Suzy Bila é um exortar à sobre-vivência. Diante do seu labor artístico, é impossível não sentir o movimento das asas da sua fénix. A Suzy é, no entanto, fundamentalmente uma mulher da Terra; o movimento das suas asas é a metamorfose do seu Possível em casas – Abrigo para os seus filhos do coração; um coração enorme como a sua pintura, porque dotado de um pulsar ético. Isso mesmo que escapa a quaisquer categorias estéticas; dir-se-ia antes, isso mesmo que as sobre-voa. Suzy está, por isso mesmo, à altura dos que tão generosamente acolhe, empreendendo os seus direitos, através da libertação que é a arte; curando feridas, ressignificando narrativas.  Do alto, o passado, o presente e o futuro são simultâneos.

E só se pode estar à altura, e voar tão alto, quando se aprendeu a sentir as dores da Terra – missão tão terrível, quanto luminosa; de uma grandeza não mensurável. Só se pode estar à altura, como tão claramente nos dá a ver com o seu percurso nesta entrevista, quando se tem por principal tarefa conhecer-se a si próprio. 

 

Por Madalena Folgado e Victor Pinto da Fonseca

 

 

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MF: Comecemos por fazer uma incursão ao passado, quando ainda eras uma adolescente, em Moçambique. Fala-nos um pouco sobre um encontro muito especial com um pintor, levado a cabo pela curiosidade da jovem Suzy, e sobre o modo como a experiência da pintura se estendeu no teu quotidiano de então.

SB: Em 1993, conheci Noel Langa, artista moçambicano que me permitiu a exploração de aguarelas no seu ateliê. Via-o a pintar e achava aquilo fantástico mas não o conhecia o suficiente para o abordar e nem tinha a capacidade para tal ousadia, era uma adolescente. Fui então ter com ele um dia com uma amiga, e achei piada ao Noel porque ele disse que já me havia visto antes, a espreitá-lo. Convidou-me a entrar. Juntei-me a outros jovens que pintavam, e fizemos um grupo espetacular. Mas vivia um dilema, os materiais permaneciam no ateliê o meu entusiasmo pela exploração não terminava naquele espaço e eu queria continuar em minha casa na ausência das tintas usava temperos de cozinha para criar as minhas peças. Nunca exigi muito à vida, tentei sempre exigir de mim, sou uma constante descoberta de mim. Em finais de 1996  desloquei-me a Portugal, a relação que tive com a cozinha acabou por se prolongar no tempo. Quando cheguei a Lisboa, transformei as minhas cozinhas em atelier. Lugar no qual gradualmente fui dando continuidade ao meu processo criativo. Olhando para trás vejo uma relação simbiótica entre o nutrir a alma e o acabar com a fome.

 

MF: Eis que te encontras com...

SB: Em 1998 realizei a minha primeira exposição individual Segunda vida na Galeria Municipal da Costa da Caparica. Nesse mesmo ano integrei o Centro de Arte e Comunicação Visual-Lisboa (Ar.co) apoiada pela Olga Lima e Herberto Helder. Posteriormente em 1999 tive o privilégio de conhecer o Eurico Gonçalves, que nessa altura me questionou sobre o local onde desenvolvia o meu processo criativo, ao mostrar a minha cozinha ficou surpreendido e quis saber como consegui desenvolver o trabalho tão grande naquelas condições. Conversamos sobre cada peça, escreveu posteriormente um texto, em Abril de 1999, no qual refere, cito: 

 

“Numa perspectiva global, a pintura da Suzy não abdica da natureza impulsiva do seu expressionismo vigoroso. Faz-nos pensar no carácter escultórico desta pintura. A tactilidade da matéria áspera e as superfícies lisas de volumes arredondados e sensuais é uma característica da arte africana, tradicionalmente ligada à escultura biomórfica e ao culto do objecto mágico e/ou utilitário, por vezes, realçado com cores vivas, concebido para fins ritualistas ou para ser inserido no uso quotidiano. Tanto quanto me apercebo, a realidade africana, sendo excessivamente próxima e contagiante, não deixa de exercer um terrível fascínio. A arte neo-expressionista de Suzy Bila reflecte também essa condição mágica.” 

 

Este texto constou no catálogo da minha segunda exposição individual Espelhos e véus, patente de 30 Junho à 31 de Julho de 1999, no Espaço Fala Só em Lisboa. Em 1999, recebi o convite da Câmara Municipal da Amadora para realizar a minha exposição individual na Galeria Municipal. As peças que preparei para esta exposição foram construídas em fase de grande inserteza, gerando um traço impulsivo de uma iquietude, de algo sobrio. Apresentei o projecto, ao João Queiroz que escreveu o texto “Um Movimento Inverso”  que constou no catálogo da exposição O(s) sentido (s) do Corpo. Tornada possível de 9 Junho a 9 Julho de 2000 no Espaço Delfim Guimarães. 

 

MF: Fala-nos um pouco do modo lidaste com a validação exterior; a do(s) mercado(s) da arte, aspeto tão sensível a toda a criação, quanto digna desse nome. Como é que te foi possível, diante das vicissitudes inerentes aos começos e recomeços – penso por exemplo nesses teus primeiros tempos de fixação em Portugal –, não permitir que o teu mundo interior fosse corrompido, i.e., que forças convocaste de modo a não sucumbir à tentação de ‘encaixar’ para sobreviver? 

SB: O meu percurso é feito de processos marcados por datas, velocidades e matérias diferentes. De constantes reajustamentos de dinâmicas que envolvem a minha condição social como mãe, mulher, artista, educadora. Quando cheguei a Portugal vinha de uma intensidade de envolvência em exposições, workshop, bienal e com um prémio. Aqui senti-me isolada e vivia numa grande nostalgia por aquilo que tinha deixado para trás. Era tudo novo e confuso, principalmente o choque cultural, o meu universo estava voltado para casa, para Maputo. Não conseguia estar de bem comigo, estava em contradição, sentia que Portugal não queria saber o que eu poderia trazer de outros contextos, todos queriam ensinar-me como se fosse tábua rasa, era como se me dissessem: "Excluí o melhor em ti e veste esta capa". Procurei construir o meu trabalho silenciosamente, procurando trabalhar noutras áreas, voltando a estudar. Gradualmente fui exigindo cada vez mais de mim, na construção do meu processo e me permitindo uma reflexão constante. Do outro lado, os processos que acompanho numa Equipa de Apoio à Família exigem uma disponibilidade acrescida de mim, de tal forma, que o meu sistema interno procura constantemente se reorganizar encontrando estratégias para compensar a ausência do trabalho em atelier. Há uma simbiose escondida entre o meu trabalho com as crianças e o meu processo criativo, em que em alguns momentos as tomadas de decisões emergem sob a forma de desenhos, de forma espontânea, o que ajuda a separar o emotivo da lógica racional, assim como ajuda a própria tomada de decisões. Não consigo uma explicação para isto, mas é disso que é feita a minha liberdade como artista. 

 

MF: Como empreendes essa dimensão ética que indiretamente referes, ou em que sentido intuis que devemos coletivamente caminhar, no sentido de através da mesma empodeirar os mais jovens,  por uma verdadeira autoestima, em particular, aqueles com os quais tens vindo a trabalhar? Fala-nos a partir dessa tua experiência rica, que tem vindo a entrelaçar pedagogia e arte.

SB: Considero-me artista, educadora e investigadora. A minha investigação surge na sequência dos resultados de um estudo realizado pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, no âmbito da reestruturação do departamento da Ação Social em 2019, que colocou em evidência a vulnerabilidade social como denominador comum nas famílias acompanhadas pelas Equipes de Apoio à família na Grande Lisboa, tornando também visível a carência de condições que lhes permitam assegurar todas as necessidades das crianças e jovens. Neste âmbito procuramos construir um campo transdisciplinar emergente na intervenção social, onde educadores artísticos possam redefinir a sua prática na intervenção social. investigando as dinâmicas e todas as condições em que ocorre o processo criativo, com o objetivo de sugerir uma nova estrutura conceptual na qual a nossa investigação possa prosseguir, elucidando a ideia de que as artes devem estar no centro de todos os ambientes educativos.

Embora haja diferentes olhares e pensamentos filosóficos que suportam as pesquisas em educação artística, a minha investigação procura invocar maneiras artísticas de conhecer e estar no mundo através da pesquisa baseada em artes, que envolvem crianças e jovens em processos de descoberta e invenção, fazendo uso de experiências para refletir sobre suas performances, e preservar, criar e reescrever suas histórias. .O meu caminho na investigação implicou o reconhecimento da especificidade das crianças e jovens e dos conceitos de educação artística, obrigando-me a invocar inevitavelmente uma reflexão filosófica (epistemológica de compromisso ético), e um plano metodológico, que gradualmente me permitiu percorrer etapas de uma vivência dinâmica, desenhada ao longo do processo de investigação, com a participação de uma equipa da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Para vivermos numa democracia inclusiva, precisamos de  apreciar plenamente as artes como um fenómeno humano, ligado à vida de cada um.

 

VPF: És artista, no entanto tens uma prática diversificada que é tanto artística quanto literária e académica: Escreveste recentemente um livro crítico sobre a exploração infantil e tens um sentido de comunidade visível no âmbito da Educação Artística, colaborando com a Associação de Profissionais de Educação de Infância (APEI), e com o Centro de Investigação e Estudos em Belas Artes (CIEBA), com intervenção em contextos onde a negligência social persiste, e ao que sei, encontras-te a desenvolver um projecto de doutoramento numa Unidade de Intervenção Familiar da SCML - Santa Casa da Misericórdia de LISBOA. Foste também recentemente selecionada para representar Moçambique na Feira do Dubai, juntamente com a Reinata Sadimba. A variedade das tuas qualidades é espantosa e diferenciam o teu trabalho de muitos dos artistas contemporâneos. Quais são as tuas referências na arte de um modo geral ou no pensamento… que artistas te influenciam e inspiram?

SB: Tenho tendência a trabalhar diferentes processos em simultâneo e tenho procurado viver a vida dentro de uma plenitude possível, aceitando as interferências externas como forma de aprendizagem que me levam a descobrir, e inventar novas possibilidades de desdobramento na descoberta do novo. O meu  processo criativo é  vital, é a minha sobrevivência. Nunca sei se acordo para um ou outro, eles entrelaçam-se, desdobram-se criando vários EU. Há sempre algo externo a mim, o "de-fora", que influencia os processos de construção gerando uma força que não se esgota onde tudo se metamorfoseia. É neste lugar que mora a minha resistência, onde consigo responder as minhas inquietudes e questionamentos.

Lamura surge numa altura em que trabalhava sobre a temática da Mulher. Depois de uma recolha feita em Moçambique sobre a problemática da Mulher, procurei explorar outros lugares, quanto mais pesquisava sobre a mulher, mais se entrelaçaram os laços com a maternidade. Nessa altura deparei-me com o massacre do Bogoro que levantou questionamentos, ao aprofundar a minha pesquisa deparei-me com as imagens das crianças nas minas de Cobalto. Não consegui ficar indiferente a situação da exploração infantil, e pelo facto de estar cada vez mais envolvida na área de Infância, Juventude e Família, estava desperta sobre os direitos humanos. Imaginei diferentes possibilidades de trazer essa temática ao público, e comecei por esboçar uma chuva de ideias numa ardósia na parede do meu quarto. O facto de ter a ardósia junto aos pés da cama permitia-me imaginar cenários entre o sono. Surge, no decorrer do esboço, a essência do conto. Quando senti que o esboço já não cabia na parede passei para o papel. Procurei construir personagens que conseguissem refletir a importância do brincar, da descoberta, do afeto, da família, da comunidade e da transversalidade dos direitos humanos. Lamura mostra como o poder da palavra no imaginário fértil de uma criança, desvaloriza o tamanho dos obstáculos e faz do nada surgir o significado da liberdade. Mostra ainda alguns dos problemas políticos e sociais contemporâneos que merecem um olhar amplo e uma resposta urgente, para a construção de uma sociedade mais humana, onde todas as crianças possam usufruir plenamente dos seus direitos. 

Quanto à EXPO 2020, não fui selecionada, fui convidada. No decorrer da minha exposição nua e crua no Centro Brasil Moçambique, tive o privilégio de receber o Alto comissariado da Expo Dubai, que me fez este convite. No decorrer dos dois anos o pelouro da organização do evento entrou em contacto comigo para me dar a conhecer as condições da entrega das peças para a exposição, não sabendo nunca ao certo as pessoas convidadas para o evento. Embora na conversa com  Alto Comissariado tenha demonstrado o grande interesse em levar as artistas mulheres de Moçambique, as exigências da própria exposição falaram mais alto, prevalecendo as novas tecnologias. Ao visitar o nosso pavilhão, apercebi-me que dentro dos artistas plásticos convidados haviam peças expostas na sala aberta ao público e outras que estavam no hall dos gabinetes das reuniões onde o alto comissariado e a sua equipa recebiam entidades externas. Encontrando nesta coleção como J. Quehá, Kheto, Matias Ntundo, José Norberto, Renata entre outros. Num espaço onde as novas tecnologias vibram por todos os cantos, mostrando a metáfora do futuro da humanidade, procuramos  levar para o pavilhão de Moçambique uma performance que realça  o sentimento de pertença, o sentido da liberdade de criar e a universalidade significada pela vida e pelas suas conexões com o outro através da arte. Vivenciamos o acto de criar, numa performance que  mostrou o poder da arte de resgatar do aqui e do agora a finitude das coisas. Em seis horas silenciamos o tempo e vivemos o momento das coisas simples, deixando no pavilhão da terra que nos viu nascer quatro peças carregadas de esperança, de escuta e de conexões de processos de criação de vários intervenientes.

O grande objetivo da Expo 2020 em Moçambique foi dar a conhecer as potencialidades do país e atrair investimentos para os sectores do turismo, energia, infraestruturas, entre outros. A nossa performance no Dubai pretendeu realçar que a arte é transversal a todas as áreas aqui destacadas. Pretendíamos também realçar que intervir na educação e na arte é desafiar as potencialidades das crianças para o ato criativo e para a descoberta de si. Nesta experiência feita no pavilhão de Moçambique, foi gratificante observar toda a dinâmica sem regras, mas a arte como um ato natural, condicionado pela especificidade do lugar e influenciando o meu processo de construção da obra. As crianças entraram no pavilhão sem saber o que as esperava, acompanhadas pelos professores, educadores e monitores. Os sentidos levaram-nas à timbila, que soou em diferentes tons. As crianças envolviam-se, tornando o momento único; o som característico tocava nos sentimentos, gerando curiosidade em quase todas as crianças e lá geriam a expectativa que chegasse a sua vez. Noutro espaço, materiais cheios de cor eram preparados. Em grande roda, sentados no chão, à volta da tela em branco, cada um escolheu a linguagem que mora no seu coração e deixaram mensagens em desenho, pintadas, escritas… Esta performance continuou por mais três telas dentro e fora do pavilhão, com um público diversificado que de forma autónoma quis partilhar algo connosco. Olhando atentamente para este movimento dos visitantes, percebemos que procuraram deixar algo seu naquelas telas, o que mostra como somos seres de comunicação, que nos ligamos aos outros, aos lugares, e é essa janela aberta para o mundo que Moçambique nos permitiu transpor com a nossa performance, ao nos abrirmos à inovação tecnológica, à expansão e à mudança. As novas tecnologias realçam competências nas novas gerações. Muitos jovens que vivem em lugares marginalizados envolvem-se em processos de criação de ferramentas de comunicação, criando aquilo que se torna o seu recurso de sobrevivência. Mas todo o território, seja digital, físico ou artístico, torna-se um local de luta e resistência e acarreta alguns riscos que exigem uma rápida mudança de abordagem pedagógica, que consiga descortinar linguagens. A arte leva-nos para diferentes abordagens, que dependem essencialmente do que procuramos. Aceitando estas ambiguidades, aprendemos a ver as interpelações dos contextos que nos unem, valorizando esses encontros autênticos que nos ensinam a desterritorialização das linhas que transportam rigidez e desafiando a outro olhar e trazendo novas aprendizagens. Abre-se, desta forma, um leque de conexões que nos levam a fundamentar a nossa subjetividade disruptiva.

Dennis Atkinson refere que a arte permite-nos encontrar o espaço de desobediência que abre novas formas de pensar e agir, sendo no diálogo entre os desafios e as expectativas que o processo criativo surge, com a sua velocidade carregada de matérias diferentes, interligando a arte com a educação e realçando o papel do artista como agente de mudança social.


VPF: Moçambique tem uma história de mulheres pioneiras nas artes visuais do século XX em Africa. No entanto ser artista mulher e negra, mantém-se um ato de perseverança, resiliência, estoicismo e aceitação em certa medida, em relação aos hábitos mentais e de linguagem que imperam no sistema artístico estabelecido, que mantém escrupulosamente a divisão entre talento negro e talento branco. Como é que tens enfrentado os obstáculos de ser artista dentro da diáspora africana em Portugal, que tenho observado, é persistentemente ignorada e incompreendida? 

SB: A paisagem ontológica do pensamento ocidental, que fundamenta as práticas artísticas das antigas colónias portuguesas, realça cicatrizes que modestamente moram na pele de cada um, desafiando-nos a percorrer caminhos de procura da “cura” de identidade. Muitos de nós, educadores, artistas, investigadores dos países de língua portuguesa, herdámos uma história que guarda no silêncio do tempo feridas que ainda precisam de ser cuidadas,  para conseguirmos avançar para novos entendimentos de uma educação que reflita o nosso tempo. Há necessidade de percorrermos caminhos para a cura, que nos levará  a uma alta intemporal e que nos permitirá abraçar o futuro. Precisamos não só de falar do passado que nos une, como também de curarmos as feridas que nos foram infligidas a todos nós, numa lógica de catarse que nos leve à mudança e à construção de novas políticas que sejam coerentes com o nosso tempo e com os valores culturais, políticos e sociais e defensoras da diversidade cultural e dos direitos humanos. A minha infância e juventude foram marcadas por especificidades históricas e sociais que nunca imaginei estarem tão presentes e significativas. Atualmente sinto necessidade de um reencontro com as minhas raízes, com um olhar mais crítico e uma arte mais autónoma, de uma mulher adulta e livre nas suas escolhas, querendo continuar a fazer arte cada vez mais definidora da minha essência. Os diferentes contextos por explorar, são possibilidades a não dissipar na melhoria da minha experiência artística e na concretização de projetos que me permitirão uma abertura para expor e para a divulgação do meu trabalho.

Numa relação de singularidades com os problemas que envolvem a mulher e a criança. Iniciei um projecto que deu lugar a exposição nua e crua carregada de simbolismo de um mundo em mudança, onde retratei o drama da violência, a solidão de quantas mulheres no mundo reduzidas ao anonimato que vivem em luta pela sua própria identidade. Pretendo dar continuidade a este projeto, refletindo sobre as dificuldades que a mulher continua a sofrer nas sociedades contemporâneas. Ao retratar a mulher nos vários papéis sociais e na luta pela igualdade de género direcionei as suas fragilidades para o mundo, como forma de reconhecimento da sua resistência na luta pela mudança. Pretendo também uma abordagem que favoreça processos de confrontação entre o passado e o presente, visando a arte como ferramenta de construção e de intervenção pedagógica. Acredito que a educação é uma ferramenta que todos os contextos sociais devem usar como meio para a autonomização da mulher, partindo da infância, e da família.