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MIGUEL LÓPEZ-REMIRO FORCADA
25/06/2026
Com obras nas Fundações François Pinault, Louis Vuitton e Jacob Rothschild, a artista portuguesa Joana Vasconcelos conta também com uma série de exposições individuais internacionais no seu currículo, em locais como o Palácio de Versalhes, a Bienal de Veneza, o Museu Guggenheim de Bilbau e o Massachusetts College of Art and Design. Este verão, Vasconcelos expõe no Museu Picasso de Málaga. A exposição Joana Vasconcelos. Transfiguração inclui esculturas e instalações desde o final da década de 1990 até criações mais recentes e estará aberta até 27 de setembro de 2026. James Mayor conversou com o curador da exposição e diretor artístico do Museu Picasso de Málaga, Miguel López-Remiro Forcada.
Por James Mayor
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James Mayor: Por que convidou Joana Vasconcelos para a casa de Picasso?
Miguel López-Remiro: Acredito que ambos os artistas partilham uma compreensão semelhante da tradição. Nem Picasso nem Vasconcelos encaram a herança cultural como algo fixo ou sagrado. Para ambos, a tradição é um material vivo que pode ser transformado, deslocado e reativado.
A exposição não se baseia em semelhanças formais nem em referências diretas a Picasso. Pelo contrário, assenta numa operação artística partilhada: a capacidade de fazer com que as formas herdadas apareçam de modo diferente. Nesse sentido, trazer Joana Vasconcelos para a casa de Picasso não se trata de criar um diálogo entre duas imagens, mas sim de revelar uma atitude comum em relação à cultura, à memória e à liberdade artística.
O título Transfiguração surgiu precisamente desta ideia. O que nos interessa não é a identidade como algo estável, mas sim a identidade em movimento.
JM: A Vasconcelos é uma artista conceptual, barroca ou algo diferente?
MLR: Penso que essas categorias são demasiado restritas para descrever plenamente o seu trabalho. Existe, sem dúvida, uma dimensão conceptual na forma como ela desloca objetos e altera os seus significados. Ao mesmo tempo, há uma exuberância, uma teatralidade e uma intensidade sensorial inegáveis que remetem para certas estratégias barrocas.
No entanto, nenhuma das definições parece suficiente. O que distingue Vasconcelos é a sua capacidade de combinar complexidade intelectual com impacto visual e emocional imediato. Ela não nos pede para escolher entre ideia e experiência. A obra atua simultaneamente em ambos os níveis.
A sua arte é talvez melhor compreendida através da noção de transfiguração: as formas permanecem reconhecíveis, mas a sua presença e densidade simbólica são intensificadas.
JM: Na sua opinião, a Joana Vasconcelos é uma artista feminista?
MLR: Sim, embora talvez não num sentido doutrinário.
Muitas das suas obras surgem de territórios historicamente associados às mulheres: o espaço doméstico, as práticas têxteis, as tradições artesanais e as formas de cuidado coletivo. Mas o que mais me interessa não é apenas a representação; é a forma como ela reorganiza os sistemas de valores.
Materiais e práticas tradicionalmente considerados secundários ou decorativos tornam-se estruturais, monumentais e culturalmente centrais. Através desse gesto, ela questiona as hierarquias que, historicamente, separaram a cultura erudita da popular, a arte do artesanato, as esferas masculina e feminina.
O seu feminismo está, portanto, enraizado na forma como a obra funciona. É um feminismo de transformação, em vez de uma mera declaração.
JM: Picasso teve várias relações com mulheres artistas. Como acha que ele se teria relacionado com Joana Vasconcelos enquanto artista?
MLR: Qualquer resposta seria, necessariamente, especulativa. O que parece mais produtivo é imaginar um encontro entre dois artistas que entendem a arte como um processo de transformação.
Picasso admirava a força artística, a independência e a inventividade. Vasconcelos possui estas três qualidades. Ela desenvolveu uma linguagem altamente distinta, capaz de transformar materiais do quotidiano em estruturas simbólicas complexas.
Suspeito que Picasso teria reconhecido no trabalho dela uma artista que não tem medo da escala, da experimentação e do risco. Para além das diferenças de geração, contexto e sensibilidade, ambos partilham uma profunda confiança no poder transformador da prática artística.
JM: Há tanto trauma como humor na obra de Picasso, e o mesmo se passa na obra de Joana Vasconcelos. Gostaria de comentar esta dupla resposta emocional?
MLR: O humor e o trauma não são opostos. Muitas vezes, coexistem.
Uma das qualidades notáveis da obra de Joana Vasconcelos é que ela cria uma sensação imediata de prazer, surpresa e até alegria, ao mesmo tempo que aborda questões relacionadas com o poder, a identidade, o género, a memória ou as estruturas sociais.
Algo semelhante pode ser encontrado em Picasso. Mesmo em obras que emergem de profundas tensões históricas ou pessoais, há frequentemente uma vitalidade extraordinária.
O que interessa a ambos os artistas não é a ilustração do sofrimento, mas a transformação da experiência. A arte não apaga a complexidade; dá-lhe forma.
JM: A monumentalidade que, por vezes, caracteriza a obra de Joana Vasconcelos tem sido, ocasionalmente, descrita como um "artifício". Que função desempenha ela na sua obra?
MLR: A monumentalidade não é o objetivo da obra; é a consequência de um processo.
A própria Joana tem insistido frequentemente que a escala não é simplesmente uma ferramenta. As dimensões de uma peça emergem da transformação conceptual do objeto. Quando uma panela, um pedaço de renda ou um elemento doméstico passa por este processo de transfiguração, a escala torna-se parte do novo significado.
A sua monumentalidade não funciona como os monumentos tradicionais associados ao poder e à permanência. É frequentemente suave, têxtil, envolvente e participativa. Em vez de dominar o espectador, convida à habitação e à experiência.
JM: Escreveu sobre a exposição que "a forma mantém-se, enquanto o significado se expande". Pode falar-nos um pouco sobre isso?
MLR: Esta frase está no centro da exposição.
Um coração continua a ser um coração. Uma panela continua a ser reconhecível como uma panela. Um objeto doméstico não se perde na abstração. A forma sobrevive.
O que muda é o seu horizonte simbólico. Através do deslocamento, da escala, da transformação material ou do contexto, o objeto começa a gerar significados que ultrapassam a sua função original.
É isto que entendo por transfiguração. O objeto não se torna outra coisa; apresenta-se de forma diferente. A forma mantém-se, enquanto o campo de interpretação se expande.
JM: De que forma é que Joana Vasconcelos, para usar as suas palavras, "reorganiza as nossas hierarquias culturais"?
MLR: Ela desestabiliza constantemente categorias que normalmente tomamos como garantidas.
Coloca o artesanato ao lado da arte contemporânea, os objetos domésticos ao lado da escultura monumental, a cultura popular ao lado das formas culturais de elite.
É importante referir que ela não reconcilia estes opostos numa síntese confortável. Em vez disso, permite que coexistam sem hierarquia.
O resultado é que os espectadores são encorajados a reconsiderar o que valorizam e porquê. Materiais, tradições e práticas que muitas vezes ocuparam posições periféricas tornam-se, de repente, centrais.
JM: Vasconcelos pode ser considerada um produto da cultura portuguesa, ou acha que as suas raízes e a sua prática se inspiram em fontes mais amplas, com um significado mais abrangente?
MLR: Ambas as coisas são verdadeiras simultaneamente.
Portugal é um ingrediente fundamental na sua obra. Os materiais, o artesanato, os símbolos e as referências visuais estão profundamente ligados à cultura portuguesa.
No entanto, ela não os utiliza como folclore nem como marcadores fixos de identidade. Ela transforma-os em veículos para questões mais amplas sobre memória, desejo, poder, género, pertença e perceção.
Quanto mais específico se torna o seu ponto de partida, mais universal a experiência muitas vezes parece. O trabalho de Vasconcelos demonstra que a universalidade não se alcança abandonando a identidade local, mas sim passando por ela.
Portugal desenvolveu um ecossistema artístico extraordinariamente dinâmico nas últimas décadas, e Joana Vasconcelos é uma das suas figuras internacionais mais visíveis.
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Miguel López-Remiro
É licenciado em Economia e doutorado em Filosofia e Literatura, Estética e Teoria da Arte pela Universidade de Navarra; possui ainda um MBA Executivo pelo IESE e é formado pelo Getty Leadership Institute da Universidade de Claremont, em Los Angeles. Foi investigador convidado na Universidade da Califórnia, em San Diego, e é editor da primeira antologia dos escritos de Mark Rothko, publicada pela Yale University Press e pela Flammarion. Desempenhou as funções de Diretor Adjunto de Curadoria do Museu Guggenheim de Bilbau, Diretor Fundador do Museu da Universidade de Navarra, curador em várias fundações e professor em diversas universidades. Desde 2024 que é Diretor Artístico do Museu Picasso, em Málaga.
James Mayor
Jornalista que escreve sobre Portugal – para meios de comunicação portugueses e britânicos – sobre cultura, temas sociais, indústria vinícola. Foi consultor de branding e conteúdos em Portugal e em França, sobre museus franceses, indústria francesa de artigos de luxo e indústria vinícola portuguesa. Fundou e dirigiu a Galerie James Mayor (Paris, arte contemporânea).

























