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IGREJA DE SÃO JOSÉ DA BOAVISTA UNE VIDA SACRA E VIDA CÍVICA EM LISBOA
YATZER
27/09/2026
A arquitectura sacra sempre evoluiu, mas o modernismo marcou uma verdadeira ruptura com a essa gramática herdada. As capelas e igrejas de Le Corbusier, Alvar Aalto, Eero Saarinen, Marcel Breuer e Gio Ponti demonstraram até que ponto este tipo de edifício podia ser repensado sem perder a sua capacidade de transcender. Essa flexibilização acelerou-se na década de 1960, após o Concílio Vaticano II, cujas reformas litúrgicas exigiam uma participação mais plena da congregação, incentivando disposições espaciais que enfraqueciam a hierarquia há muito estabelecida da nave longitudinal e da abside distante.
A Igreja e Centro Paroquial de São José da Boavista, em Lisboa, insere-se plenamente nessa linhagem: de forma ousadamente moderna, adopta uma nave centralizada, ao mesmo tempo que alarga a ideia de congregação para além do próprio culto. Concebido por Pedro Matos Gameiro, da Matos Gameiro Arquitectos, e João Favila Menezes, do Atelier Bugio, o projecto, vencedor de um concurso público, combina funções religiosas, paroquiais e comunitárias em torno de uma nova praça pública, tornando o encontro cívico e a assembleia litúrgica parte da mesma composição arquitectónica.
A maior parte do terreno, de forma aproximadamente quadrada, é dedicada a este novo espaço público, estruturado por dois volumes retangulares dispostos em ângulo recto. O edifício paroquial, de baixa altura, emoldura um dos lados como um limite habitado, enquanto a igreja, de maiores dimensões, se ergue como um objecto independente no seio da praça. Em vez de dividir o terreno em zonas separadas, a igreja foi elevada acima do solo, permitindo que o espaço público pavimentado se prolongue por baixo dela, de modo a tornar-se simultaneamente um ponto focal na praça e parte da sua circulação.
Os dois volumes são deliberadamente diferentes, refletindo cada um o seu respectivo programa. A igreja é mais alta, lisa e branca, com a sua massa elevada a sinalizar a sua finalidade espiritual, enquanto o edifício paroquial é revestido a betão à vista, com a sua forma baixa firmemente ancorada no local, em consonância com o seu papel orientado para a comunidade. Este último alberga um centro comunitário e duas capelas mortuárias ao nível da praça, com o centro paroquial acima, onde se abre para um pátio elevado que também dá acesso à igreja. Recessos profundos interrompem a geometria, de resto compacta, da igreja, albergando o sino, bem como a sequência de escadas e entradas que conduzem ao pátio elevado.

© Alexander Bogorodskiy / Cortesia Yatzer
A contida geometria exterior da igreja contrasta com um interior marcadamente mais dramático. A entrada faz-se através de um vestíbulo baixo que dá acesso a duas antecâmaras, cada uma delas com uma secção estreita no limiar, antes de se expandirem para cima através de uma proporção alta e estreita. Ao avançar para a nave, os tectos rebaixados do vestíbulo e a luz fraca dão lugar a um espaço luminoso e centralizado, coroado por um vazio com quase dez metros de altura.
Coroado por uma clarabóia circular que conduz a luz do dia em direção ao altar central, este vazio imponente é preenchido por um denso conjunto de luzes suspensas e esguias, acentuando a sua verticalidade e transmitindo uma sensação de suspensão. Posicionado diagonalmente em relação à sala abaixo, o vazio introduz também uma subtil atracção rotacional que, juntamente com a disposição circular dos bancos em torno do altar, promove um sentimento de união, em consonância com o ideal de uma congregação participativa.

© Alexander Bogorodskiy / Cortesia Yatzer
Revestido com ladrilhos de mármore de Estremoz, cujos veios claros envolvem paredes, pavimento e tecto numa única superfície envolvente, a transição do vestíbulo íntimo para a nave luminosa torna-se ainda mais transcendental, com a paleta de cores suaves e ascéticas a não deixar nada que distraia da luz, da proporção e do volume.
Essa mudança de escala evocativa é emblemática da forma como São José da Boavista funciona em dois planos simultaneamente. Internamente, reinterpreta a igreja contemporânea em torno do drama espacial, da proximidade e do foco comum; externamente, trata o complexo paroquial mais alargado como infraestrutura cívica. O sagrado e o comunitário recebem identidades distintas, no entanto, ao torná-los fisicamente contínuos, o projecto sugere que uma igreja pode pertencer ao seu bairro tanto quanto à sua congregação.
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Este artigo foi originalmente publicado em inglês na Yatser, no dia 7 de Setembro de 2026, com o título The Church of São José da Boavista Brings Sacred and Civic Life Together in Lisbon. A Artecapital agradece à Yatser a disponibilização do artigo para português.























