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MODERNIDADE TRANQUILA. JOSÉ CARLOS LOUREIRO E A ÉTICA DA PERMANÊNCIA
JOÃO ALMEIDA E SILVA
17/01/2026
O arquitecto José Carlos Loureiro (1925–2022) completaria 100 anos em Dezembro de 2025. Mais do que um exercício comemorativo, o seu centenário constitui uma ocasião para reavaliar criticamente uma obra cuja amplitude, consistência e discreta força transformadora moldaram de forma decisiva a arquitectura portuguesa da segunda metade do século XX. Num momento em que o discurso arquitectónico tende a privilegiar a visibilidade imediata e a excepcionalidade formal, revisitar Loureiro permite recentrar o debate na permanência, na adequação e na responsabilidade disciplinar.
A iniciativa conjunta Loureiro 100, organizada pela Fundação Marques da Silva — instituição à qual o arquitecto legou o seu arquivo —, pelo Lugar do Desenho – Fundação Júlio Resende, e pela Câmara Municipal da Maia, com curadoria e projectos expositivos de Joaquim Vieira de Magalhães e Luís Martinho Urbano, propõe precisamente essa reavaliação. O projecto articula três exposições que cobrem diferentes dimensões do seu percurso. Como sublinha a nota curatorial, “durante a sua longa vida e produtiva actividade profissional, Loureiro projectou centenas de edifícios que marcaram a paisagem construída de diversas cidades portuguesas. A arquitectura que desenhou, primeiro em nome próprio e mais tarde no Atelier GALP, é simultaneamente afirmativa, generosa e democrática, representando ideais de modernidade, urbanidade e solidez.” [1] Esta síntese revela o equilíbrio entre pragmatismo técnico e ambição cultural que atravessa a sua obra, sempre atenta aos programas emergentes da sociedade de consumo e às exigências de uma modernização acelerada.
As três exposições — Causa Pública, Casas para Todos e Arquitecturas de Representação —, que mostram desenhos, fotografias e maquetes, organizam-se por tipos e escalas de encomenda distintas, oferecendo uma leitura sistematizada do contributo de Loureiro para a arquitectura institucional, doméstica e corporativa. Esta divisão, embora clara, não fragmenta a obra; antes pelo contrário, evidencia a continuidade de princípios projectuais aplicados a contextos e programas diversos.
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Vista da exposição Causa Pública, Fórum da Maia. © Giovanna Christe
Apresentada no Fórum da Maia, no âmbito do Mês da Arquitectura da Maia, Causa Pública concentrou-se nas grandes empreitadas de uso público. A mostra evidenciou a capacidade do arquitecto para operar com programas complexos — hospitais e tribunais, edifícios religiosos e desportivos, correios e agências bancárias, equipamentos municipais e universitários — que exigiam simultaneamente racionalidade construtiva e uma expressão formal capaz de afirmar a presença destas obras no território. Foram apresentadas 45 propostas arquitectónicas, entre projectos e obras, destacando-se, entre outras, o Pavilhão dos Desportos (actual Super Bock Arena – Pavilhão Rosa Mota), as numerosas faculdades concebidas para as Universidades do Porto, do Minho ou da Covilhã, as múltiplas intervenções no Santuário de Fátima e o próprio Fórum da Maia. Nestas obras, a arquitectura não procura monumentalidade retórica, mas uma autoridade discreta, construída a partir da clareza estrutural e da legibilidade funcional.

Vista da exposição Casas para Todos, Lugar do Desenho – Fundação Júlio Resende. © Luis Urbano
A segunda exposição do tríptico, Casas para Todos, pode ser visitada no Lugar do Desenho – Fundação Júlio Resende, em Gondomar. Dedicada exclusivamente à habitação, a mostra reúne 16 obras residenciais, unifamiliares e plurifamiliares, revelando a versatilidade com que José Carlos Loureiro abordou o habitar. O percurso expositivo oscila entre a escala urbana — patente em grandes conjuntos de habitação social como o Bairro da Pasteleira, no Porto, ou o Bairro dos Mineiros, em Gondomar, bem como nos Edifícios de Habitação e Comércio Luso Lima e no Edifício Parnaso, ambos no Porto — e uma escala doméstica mais íntima, presente na sua própria casa, na casa-ateliê de Júlio Resende ou na casa geminada da Avenida da Boavista. É neste confronto entre escalas que se torna particularmente evidente a tensão entre estandardização e individualização, resolvida por Loureiro através de uma atenção constante à implantação, à luz e à relação com o espaço exterior.

Vista da exposição Arquitecturas de Representação, Fundação Marques da Silva. © Giovanna Christe
Apresentada na Fundação Marques da Silva, Arquitecturas de Representação destaca 46 obras e projectos associados ao sector público e privado, incluindo agências bancárias da Caixa Geral de Depósitos e do Banco Nacional Ultramarino, instalações da Nestlé e da Sacor, bem como o edifício-sede da Companhia de Seguros Tranquilidade. Nestes casos, a arquitectura assume-se como instrumento de afirmação identitária num contexto de modernização económica, colocando o projecto perante exigências de visibilidade, estabilidade e poder simbólico.
A relação entre arquitectura e poder económico torna-se aqui inevitavelmente ambígua. Loureiro responde às solicitações de representação corporativa sem abdicar de uma cultura de contenção formal, ainda que nem sempre consiga neutralizar a monumentalidade implícita associada à consolidação dessas instituições no território. A imagem corporativa constrói-se menos pela espectacularidade do gesto do que pela combinação entre solidez material, rigor construtivo e uma presença urbana controlada — uma estratégia que revela tanto os limites como a resiliência da sua ética projectual.
Em conjunto, as três exposições articulam o retrato de um arquitecto cuja obra atravessou diferentes regimes, debates e conjunturas sem perder de vista uma ética profissional assente na funcionalidade, na adequação programática e numa relação cuidada com o lugar. Esta coerência não deve ser confundida com imobilismo: a obra de Loureiro revela uma capacidade constante de ajustamento — por vezes silenciosa — às transformações técnicas, económicas e culturais do seu tempo. Exemplarmente, edifícios como o Pavilhão dos Desportos ou o edifício da Tranquilidade, em frente aos Jardins do Palácio de Cristal, tornaram-se referências duradouras precisamente por evitarem soluções excessivamente datadas.
Um aspecto particularmente conseguido do projecto expositivo é o cuidado no desenho dos layouts. No Fórum da Maia, os curadores demonstram atenção à complexidade de intervir numa arquitectura concebida pelo próprio autor. No Lugar do Desenho, esta lógica é levada mais longe: o layout resulta directamente do desenho das clarabóias, a partir das quais descem seis mesas suspensas que organizam o percurso expositivo.
No total, as três exposições apresentam cerca de 100 projectos — aproximadamente um décimo da totalidade do arquivo do atelier e cerca de um quinto das obras efectivamente construídas. [2] Nestas exposições, torna-se sistematicamente visível a força do gesto simples, mas justo, e a elegância no manuseamento das escalas, da luz e dos materiais.
Acrescendo, ainda, que um dos aspectos mais relevantes da obra de Loureiro é a sua capacidade de integrar a modernidade arquitectónica internacional no contexto português sem recorrer à imitação literal. Profundamente moderno na sua formação — como demonstra a casa que projectou para si próprio —, soube evoluir em diálogo com os debates das décadas de 1960 e 1970, reformulando linguagens sem abdicar da clareza estrutural nem da legibilidade construtiva.
Esta evolução traduz-se numa arquitectura que articula pragmatismo e expressividade, tecnologia e humanização do espaço, onde a materialidade desempenha um papel central. O perpianho, o tijolo à vista, os telhados inclinados, as superfícies lisas ou os grandes envidraçados não operam como citações formais, mas como instrumentos de construção de atmosferas e de mediação entre interior e exterior. Nesta atenção à matéria, à luz e à experiência sensível do espaço, a afinidade com uma tradição moderna mais ampla — em particular com Alvar Aalto — afirma-se menos como referência directa do que como convergência cultural, fundada na relação entre técnica, escala humana e lugar.
Celebrar José Carlos Loureiro no ano do seu centenário é uma oportunidade para reintroduzir o tempo longo no debate arquitectónico. Num contexto disciplinar cada vez mais dominado pela imagem, pela aceleração produtiva e pela lógica do evento, a sua obra recorda que a modernidade também pode ser construída a partir da permanência, da adequação e de uma relação paciente com o uso e com a cidade. Sem nostalgia nem heroísmo, Loureiro projectou edifícios capazes de envelhecer, de incorporar transformações e de permanecer relevantes sem recorrer à espectacularização. Revisitá-lo hoje não é um gesto retrospectivo, mas um exercício crítico exigente: afirmar que a arquitectura continua a ser uma prática cultural situada no tempo, responsável não apenas pelo presente que produz, mas pelo futuro que torna possível ou inviável.
Loureiro 100, tríptico de exposições no âmbito da comemoração do centenário de José Carlos Loureiro, tem organização da Fundação Marques da Silva, Lugar do Desenho – Fundação Júlio Resende e Câmara Municipal da Maia, com curadoria e desenho expositivo de Joaquim Vieira de Magalhães e Luís Martinho Urbano.
Após o encerramento de Causa Pública em 2 de Novembro de 2025, Casas para Todos e Arquitecturas de Representação permanecem patentes até 24 de Janeiro e 21 de Fevereiro de 2026, respectivamente.
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João Almeida e Silva
Arquitecto e Investigador no CEAU da FAUP, Visiting Scholar na Universidade de Princeton.
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Notas
[1] Nota curatorial, por Joaquim Vieira de Magalhães e Luís Martinho Urbano.
[2] Encontra-se em preparação o Catálogo Raisonné da obra de José Carlos Loureiro e do Atelier GALP, com publicação prevista para o final das comemorações do centenário, constituindo um instrumento decisivo para a leitura sistemática da sua produção.






























