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HABITAR PORTUGAL 1974-2024: O DIFÍCIL MAPA DA DEMOCRACIA
JOÃO ALMEIDA E SILVA
A exposição Habitar Portugal 1974-2024 parte de uma dificuldade rara: mostrar cinquenta anos de arquitectura em democracia sem os comprimir numa narrativa simplificada. Condensar, em 100 edifícios projectados entre 1974 e 2024, um retrato legível da arquitectura portuguesa produzida no continente, nas ilhas e no estrangeiro é, à partida, uma operação arriscada. A curadoria de Alexandra Saraiva, Célia Gomes e Rui Leão — com a participação de Gonçalo Furtado na definição do primeiro período, centrado em grande medida no último quartel do século XX — não tenta disfarçar esse risco. Assume-o. E é justamente dessa recusa da síntese fácil que a mostra retira uma parte decisiva da sua força.
O resultado não procura estabilizar um cânone nem encerrar uma narrativa reconciliada da arquitectura portuguesa recente. O que propõe é antes um mapa das suas diferenças: formais, programáticas, territoriais e geracionais. Como observam os curadores, a selecção “não pretende ser exaustiva, mas sim representativa da diversidade de práticas e discursos que moldaram a arquitectura portuguesa nos últimos 50 anos”. A fórmula é prudente; o gesto, esse, é ambicioso. Qualquer tentativa de fixar um conjunto de referência para meio século de produção arquitectónica expõe-se inevitavelmente à contestação. Mas é precisamente nesse terreno instável que a exposição ganha espessura: menos pela consagração de um elenco excepcional do que pela visibilidade que dá a uma transformação estrutural — a disseminação da qualidade arquitectónica em democracia.
Importa, por isso, situar esta iniciativa numa tradição mais longa de divulgação e reflexão pública sobre a disciplina, que remonta às Exposições Nacionais de Arquitectura promovidas pela Associação dos Arquitectos Portugueses até ao final da década de 1990, antes da transição para a actual Ordem dos Arquitectos. Habitar Portugal prolonga esse legado, mas fá-lo segundo um modelo mais plural e sistemático de leitura, exposição e interpretação da arquitectura. [1] A própria selecção o demonstra: nela convivem projectos tão distintos como o Edifício Luztur, em Vila da Luz, a Assembleia Regional dos Açores, na Horta, os Molhes do Douro, no Porto, a Escola de Música, Artes e Ofícios, em Chaves, ou a Faculdade de Arquitectura, em Tournai.
Na sua sétima edição, Habitar Portugal 1974-2024 propõe uma leitura crítica do papel da arquitectura na construção do país democrático e convida o público a reconsiderar o significado contemporâneo de habitar em Portugal. Ao mesmo tempo, apresenta a arquitectura como veículo cultural, político e cívico, decisivo para pensar um futuro mais qualificado e mais atento ao território e aos seus recursos. A exposição organiza-se em três eixos — Arquitectura como Gesto Político, A Persistência da Memória e Rupturas e Novas Configurações — e anuncia, nas palavras da curadoria, “uma leitura crítica das mudanças que redefiniram o território e os modos de habitar”.
A opção por um percurso temático, e não cronológico, é uma das decisões mais acertadas da mostra. Em vez de conduzir o visitante por uma narrativa linear — demasiado lisa para fazer justiça à complexidade do período —, a exposição prefere colocar em relação afinidades, tensões, persistências e descontinuidades. Evita, assim, a ficção de uma continuidade pacífica e permite ler estas cinco décadas como um campo desigual, atravessado por disputas, deslocações e sobrevivências.
Em Arquitectura como Gesto Político, a arquitectura surge ligada de forma mais explícita às condições materiais e institucionais da vida colectiva. A presença de conjuntos habitacionais como o Bairro 11 de Março, em Olhão, ou o Bairro da Malagueira, em Évora, cruza-se com edifícios institucionais como a Embaixada de Portugal em Brasília, os Paços do Concelho de Matosinhos ou o Centro Cultural de Belém, e com intervenções de escala infra-estrutural e territorial, como o Parque da Cidade do Porto, os Molhes do Douro ou a primeira fase do Metro do Porto. O que este núcleo torna evidente é simples, mas decisivo: a democracia não alterou apenas linguagens formais. Alterou programas, alargou escalas e redefiniu campos de intervenção.
Em A Persistência da Memória, o argumento desloca-se. Obras como a Pousada de Santa Marinha da Costa, o Museu da Luz, o Arquipélago — Centro de Artes Contemporâneas ou a reabilitação do Mercado do Bolhão mostram que a relação com o passado surge aqui menos como conservação passiva do que como matéria activa de transformação. A memória não aparece como lastro, mas como condição de continuidade, adaptação e reinvenção. Não se trata de preservar intacto; trata-se de reinscrever, reusar e transformar.
Já em Rupturas e Novas Configurações convivem objectos muito distintos: do Hotel Dom Henrique ao Hotel e Casino do Funchal, do Complexo das Amoreiras à Casa das Mudas, do Museu do Côa à Faculdade de Arquitectura de Tournai, do edifício Hoso à Habitação em Carvão. A heterogeneidade do conjunto torna visível uma das hipóteses mais fecundas da exposição: a arquitectura portuguesa recente já não se deixa descrever de forma convincente por uma geografia nacional estável nem por uma filiação autoral homogénea. O que aqui se expõe é um campo mais irregular, mais disseminado e mais difícil de fechar numa narrativa unitária. E talvez seja justamente por isso que ele se revela mais verdadeiro.
A montagem acompanha essa intenção com meios deliberadamente sóbrios. A exposição assenta sobretudo em fotografias, complementadas por desenhos técnicos, algumas maquetas [2] e, mais pontualmente, vídeos. À entrada, a sala maioritariamente revestida por blocos de cânhamo impõe desde logo uma atmosfera contida, quase austera. O visitante encontra primeiro uma sucessão de imagens organizadas com clareza, distribuídas por mesas e painéis murais, acompanhadas por pequenos desenhos e legendas reduzidas ao essencial. O percurso lê-se sem dificuldade. Essa contenção revela-se eficaz: torna a mostra acessível a um público mais vasto e evita o excesso documental que tantas vezes transforma exposições de arquitectura em dispositivos opacos, defensivos ou excessivamente disciplinares. Entre os momentos mais conseguidos contam-se a apresentação do projecto de Valorização da Fortaleza de Sagres, de João Carreira, a partir das páginas do Jornal dos Arquitectos de Julho/Agosto de 1989; a do Parque da Cidade do Porto, apoiada por um vídeo que reconstitui a história do projecto; e a inclusão de excertos de Neighbors, o vídeo apresentado na representação portuguesa na Bienal de Veneza, em que Álvaro Siza revisita conjuntos de habitação social por si projectados, neste caso em Haia.
Mas essa clareza tem um custo. A mostra aposta quase tudo na legibilidade imediata da imagem fotográfica. A opção facilita a leitura e torna o percurso acessível, mas tende também a nivelar aquilo que a arquitectura, enquanto experiência, distingue: materialidade, escala, relação com o lugar, uso, duração. Diante das mesas e dos painéis, o visitante reconhece facilmente formas, atmosferas e assinaturas. Reconhece menos o peso, a temperatura, a espessura e a fricção concreta daqueles edifícios com o território. Mais difícil ainda é perceber como envelhecem, resistem, se degradam, se transformam e são efectivamente habitados. A fotografia é indispensável; aqui, porém, revela com a mesma eficácia com que reduz.
É precisamente aí que a exposição se torna mais forte e mais frágil. A sua força está menos na solidez de um cânone do que na escala do mapeamento que arrisca; a sua fragilidade, no facto de esse mapeamento depender quase sempre de imagens incapazes de restituir plenamente a experiência arquitectónica. Como em todas as selecções desta natureza, será sempre legítimo perguntar pela ausência desta ou daquela obra, ou mesmo se outras 100 poderiam ocupar o lugar destas sem prejuízo da inteligibilidade do conjunto. [3] Essa objecção torna-se particularmente sensível no período mais recente, quando o aumento exponencial da produção, da circulação internacional e da diversidade de autores torna qualquer recorte mais discutível. Não porque faltem critérios à exposição, mas porque é precisamente aí que o campo se torna mais vasto, mais desigual e mais difícil de representar sem perdas.
Será também legítimo perguntar se a própria ideia de “disseminação da qualidade” não funciona, em parte, como narrativa auto-legitimadora de uma disciplina e das instituições que a representam. Aqui, a exposição toca uma questão decisiva sem a desenvolver por completo. Ainda assim, o seu critério parece menos orientado para a consagração de casos exemplares do que para a evidência de um fenómeno mais vasto: a consolidação de uma cultura arquitectónica disseminada, capaz de produzir edifícios relevantes em geografias, escalas e programas muito distintos.
A presença de obras situadas fora dos grandes centros, ou afastadas dos circuitos mais mediáticos, não surge aqui como gesto reparador nem como simples correcção de representatividade. Surge, antes, como sintoma de uma transformação mais funda: a qualidade deixou de se concentrar em episódios raros ou em figuras isoladas e passou a distribuir-se de forma mais extensa pelo território. Essa hipótese é uma das contribuições mais interessantes da exposição, embora merecesse uma formulação crítica mais incisiva.
Seria injusto exigir de uma mostra desta natureza uma tese única e inteiramente fechada. Habitar Portugal 1974-2024 oscila entre levantamento e interpretação, entre inventário e tomada de posição, e é talvez nessa oscilação que reside uma parte importante do seu interesse. Em vez de impor uma narrativa conclusiva sobre cinquenta anos de arquitectura em democracia, abre um campo de relações, aproximações e problemas. Nem sempre essa abertura se traduz numa leitura crítica igualmente densa. Mas produz, ainda assim, um mapa amplo, estimulante e útil para reconsiderar aquilo que a democracia alterou nas condições de produção da arquitectura em Portugal. Precisamente porque a mostra cumpre o principal desígnio que assume — divulgar a arquitectura junto de um público mais vasto —, seria importante retomar a ideia inicial de itinerância por vários pontos do país e publicar um catálogo que a acompanhasse, dando-lhe maior espessura teórica e crítica.
No fim, é esse o efeito mais duradouro da exposição. Não a confirmação de obras já consagradas, nem a celebração de um cânone consensual, mas a percepção de que a democracia portuguesa transformou não só o enquadramento político e institucional da arquitectura, mas também a escala da sua disseminação e a distribuição da sua qualidade. Mais do que eleger obras, Habitar Portugal 1974-2024 torna essa transformação visível. É aí que encontra a sua força crítica.
Organizada pela Ordem dos Arquitectos e com curadoria de Alexandra Saraiva, Célia Gomes e Rui Leão, a exposição Habitar Portugal 1974-2024 estará patente na Garagem Sul do Centro Cultural de Belém até 26 de Abril.
João Almeida e Silva
Arquitecto e Investigador no CEAU da FAUP, Visiting Scholar na Universidade de Princeton.
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Notas
[1] No dia 24 de Abril de 2024 foi apresentada, pela Ordem dos Arquitectos, uma nova — a sétima — edição do programa Habitar Portugal, iniciativa que tem vindo a distinguir edifícios construídos a partir de 2000 e cuja edição fora concebida para assinalar os 50 anos do 25 de Abril de 1974. Previa-se um comissariado constituído por Alexandra Saraiva, Célia Gomes, Gonçalo Furtado, Rui Leão e Victor Mestre. A inauguração estava então prevista para Outubro de 2024, em Lisboa, e antecederia uma itinerância regional ao longo de 2025. A exposição seria, então, adiada para o início de 2026.
[2] Como a da Câmara Municipal de Matosinhos, do Edifício Hoso, da Escola Superior de Tecnologia e Gestão de instituto Politécnico de Portalegre, a da Casa das Artes, entre outros exemplos.
[3] Os dados relativos ao conjunto de obras seleccionadas, à sua autoria e datas das obras podem observar-se na informação disponibilizada aqui.
























