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FRIDA ORUPABO
PEDRO VAZ
24/06/2026
Na sua primeira exposição individual em Portugal, Cloud of Confusion, Frida Orupabo apresenta uma reflexão sobre a circulação, o arquivo e o significado das imagens na era digital. Com curadoria de Marta Mestre, a mostra ocupa o MAC/CCB através de um percurso que evoca a experiência contemporânea de navegar entre imagens, memórias e narrativas fragmentadas.
Conhecida pelo trabalho desenvolvido a partir de fotografias encontradas online, a artista norueguesa constrói um universo visual onde se cruzam intimidade e violência, memória e apagamento, identidade e representação. As suas colagens e assemblages desmontam imagens e discursos para revelar as estruturas históricas e políticas que moldam a forma como vemos e somos vistos.
O título da exposição remete tanto para a nuvem digital como para a nebulosa de informação, memória e esquecimento que caracteriza o presente. Inspirada no vasto arquivo de imagens que reúne ao longo dos anos, Orupabo explora aquilo que descreve como o “abismo” das imagens: a sua estranheza, instabilidade e capacidade de gerar múltiplas leituras.
Formada em sociologia e influenciada por pensadoras como bell hooks, Audre Lorde, Toni Morrison e Grada Kilomba, a artista utiliza a colagem como ferramenta de investigação e reconstrução. Através da fragmentação, questiona representações históricas do corpo negro, confronta os legados do colonialismo e procura imaginar outras formas de existência e pertença.
A apresentação da exposição em Lisboa adquire um significado particular. Num contexto marcado pelas memórias da expansão colonial portuguesa, o trabalho de Orupabo estabelece um diálogo crítico entre passado e presente, interrogando as continuidades da violência histórica e as possibilidades de resistência e transformação.
Nesta conversa, a artista reflete sobre a fragmentação como experiência biográfica e estratégia estética, a influência da cultura digital no seu processo criativo, a construção de arquivos pessoais e o papel da arte como espaço de pensamento crítico, beleza e possibilidade.
Por Pedro Vaz
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PV: A fragmentação é um elemento explicitamente presente no teu trabalho. Onde te encontras — ou onde procuras encontrar-te — neste processo de recorte, colagem, modificação e transformação?
FO: Acho que me aproximei da colagem por um desejo de criar algo que sentia que não existia. Tornou-se uma ferramenta que me ajudou a questionar e a explorar outras formas de ver e compreender e, com isso, outras possibilidades de formas de ser. Desmembrar imagens, textos e sons, para os voltar a reunir de novas formas através da colagem, parecia-me ligado à desconstrução teórica, que era a minha formação — formei-me em sociologia, embora nunca tenha trabalhado nessa área. Acho que a fragmentação desempenha um papel tão importante no meu trabalho porque está muito presente na minha vida. A minha vida sempre me pareceu fragmentada. E, por isso, o trabalho de colagem parece-me uma forma de desmembrar as coisas, para poder reconstruir e criar algo completo e novo que faça sentido para mim, e isso dá-me força.
A colagem tem sido, em muitos aspetos, uma das ferramentas — entre muitas outras — que me ajudou a construir uma identidade que procura romper com ideias simplistas e fragmentadas sobre quem eu sou — e, por extensão, sobre quem nós somos (como pessoas negras). É como ir recolhendo pequenos pedaços aqui e ali, ao mesmo tempo que me livro de outras coisas. Depois, costuro tudo cuidadosamente, pedaço a pedaço. Acho que é assim que vejo o meu trabalho. E este é fortemente influenciado por pensadoras que significaram muito para mim, como bell hooks, Toni Morrison, Audre Lorde, Patricia Collins, Grada Kilomba e muitas outras… Como afirmou Kilomba — devido à forma como o comércio transatlântico de escravos e o colonialismo global «fragmentaram» deliberadamente as pessoas negras das suas próprias histórias, recontar a história e preencher as lacunas é tão vital.
PV: Em que medida é que a Internet, enquanto espaço criativo, se reflete na forma como encaras a prática artística? E, uma vez que trabalhas com a transformação da tua própria imagem, como é que lidas com a cultura atual do avatarismo?
FO: Não tenho a certeza. Não penso muito na minha prática nem em nada, na verdade, quando estou a trabalhar. As imagens são, na sua maioria, encontradas online e constituem a base ou o alicerce do meu trabalho. A Internet é uma fonte fácil de inspiração. E, no que diz respeito ao que falámos sobre a forma como os fragmentos estão incorporados no meu trabalho, há já muitos anos que me dedico a diferentes plataformas sociais, como o Tumblr e o Instagram, onde a fragmentação está no cerne das minhas atividades. Já não sou tão ativa agora, mas lembro-me dos primeiros anos no Instagram — quando havia mais limitações quanto ao que se podia fazer. Por exemplo, não era possível publicar vídeos longos, por isso acabava por ser um fragmento muito curto de um vídeo do qual já tinha extraído fragmentos — um fragmento de um fragmento —, o que resultou num loop muito intenso. Adorei isso. De certa forma, sinto que as limitações me impulsionam de uma forma positiva. Seja no local onde trabalho, com o que trabalho, e assim por diante. Gosto de espaços pequenos e de tesouras sem ponta. Depois, foram as grelhas que abriram novas formas de trabalhar com imagens, som, textos e narrativas, que ficou comigo na forma como penso sobre as imagens e a sua relação umas com as outras.
PV: Esta exposição integra os teus próprios trabalhos — predominantemente montagens em técnica mista — juntamente com uma seleção de imagens resultantes da curadoria que realizas através da tua página do Instagram (@nemiepeba). Hoje em dia, falamos frequentemente de curadoria digital e de como as redes sociais funcionam como portais para arquivos pessoais. Mas será que aquilo a que chamamos «curadoria», neste sentido mais inocente, não tem uma origem mais humana, ligada ao mundo real? Penso, por exemplo, na forma como uma criança começa inocentemente a organizar o seu quarto com cartazes e brinquedos. Ou no quarto de Anne Frank, em Amesterdão, com todas aquelas colagens espalhadas pelas paredes. O que realmente quero perguntar é o seguinte: não haverá muitas coisas a que chamamos por um único nome — como «curadoria» — que ocorrem em espaços tão comuns como os nossos próprios quartos, sem que as reconheçamos como tal?
FO: Sim, sem dúvida. Isso faz-me lembrar uma entrevista com Senga Nengudi, que falou da sua mãe e da forma como esta cuidava e decorava as casas onde viviam com amor e carinho. E, se não me engano, Nengudi disse que essa atenção a moldou — a forma como compreendia a beleza e como as coisas se relacionam umas com as outras. Lembro-me desta passagem porque me fez lembrar da minha própria educação com a minha mãe, que, tal como a mãe de Nengudi, também tinha uma grande atenção pela estética que a rodeava. Uma memória que tenho da minha infância é a forma como a minha mãe reorganizava constantemente o apartamento. Lembro-me do som dos móveis a serem movidos ao fim da noite e da alegria de acordar de manhã com uma sala de estar renovada. Tanto eu como a minha irmã herdámos isso. A forma como organizo as coisas em casa é a mesma com que organizo as coisas no meu Instagram, por exemplo. É motivada por um forte pressentimento do que funciona bem junto, do que faz sentir bem.
PV: O que significa para ti trazer uma exposição a Portugal pela primeira vez, para um local como o MAC/CCB — uma fortaleza que se estende paralelamente ao rio Tejo e a um mosteiro do século XVI?
FO: Significa muito para mim. A colaboração com a Marta Mestre e o resto da equipa do MAC/CCB tem sido uma experiência enriquecedora e maravilhosa para mim. Temos trabalhado em estreita colaboração, tentando encontrar novas formas de apresentar obras já existentes — o que levou a uma mudança completa na minha própria leitura do trabalho. Como uma pequena revelação. É também emocionante expor obras ao mesmo tempo que se inaugura a exposição de Grada Kilomba, devido ao quanto o seu trabalho significou para mim enquanto estudante de sociologia e, mais tarde, enquanto artista. O seu trabalho, juntamente com o de outros pensadores críticos e artistas que vivem e trabalham dentro e fora de Portugal, tem sido e continua a ser extremamente importante, porque lança luz sobre a história da escravatura e do colonialismo e sobre os legados que assumem a forma de racismo institucional, estrutural e quotidiano.

O meu trabalho também aborda isso. A interligação entre o passado, o presente e o futuro. A forma como a história molda e influencia — mas também como somos capazes de moldar e romper com discursos dominantes e violentos. Estou a tentar encontrar formas de «saída» através do meu trabalho. Ou, como Saidiya Hartman tão bem expressou numa conversa com Fred Moten: «O que significa experimentar viver no contexto de um mundo que, em tantos aspetos, é inabitável». Mencionaste o mosteiro do século XVI, que, segundo li, foi encomendado pelo rei D. Manuel I para celebrar a «viagem bem-sucedida à Índia» de Vasco da Gama. E depois li sobre vários locais que se podem visitar em Portugal para ver estátuas dele. Encontram-se este tipo de estátuas por todo o lado — que celebram homens pela sua brutalidade, exploração e opressão violenta de outras pessoas.â€¨É muito para analisar, e acho isso exaustivo.
PV: Acompanhando o fluxo digital a que todos estamos sujeitos — um fluxo que se reflete em cada ação e forma de estar no mundo — e perante o abismo de imagens cada vez mais numerosas e cada vez mais efémeras em termos de atenção e memória: devemos aproximar-nos delas e cair nesse abismo, ou devemos voltar-nos para o nosso interior e alcançar uma perspetiva em terceira pessoa, na qual a imagem se torne um elemento inserido na nossa paisagem, em vez de uma miragem?
FO: Não sei. Acho que cada um de nós tem capacidades diferentes no que diz respeito a assimilar as coisas. Devo dizer que gosto das duas coisas. E que me interessa mais a qualidade, do que é que me alimento, do que a quantidade ou a velocidade. Acho que o meu trabalho, tal como acontece com muitos, se divide em períodos mais e menos intensos em termos de fluxo de imagens ou de texto. E que a minha pausa, ou período de introspecção, acontece quando estou a fazer o trabalho propriamente dito com as mãos, mas depois disso volto voluntariamente a mergulhar no fluxo digital.
PV: Tendo em conta o conflito inerente entre proximidade e dano — em que a intimidade depende da privacidade face a terceiros e a violência envolve uma violação perturbadora que coloca todos os participantes em risco — até que ponto devemos permitir-nos envolver-nos de forma crítica?
FO: Não tenho a certeza se compreendi bem a pergunta, mas penso que o envolvimento crítico é muito importante, tal como o pensamento crítico. Sempre que alguém menciona o envolvimento crítico ou o pensamento crítico, penso imediatamente em bell hooks. Em «Art on my mind», ela escreve sobre a arte como um espaço de possibilidades e sobre a criação artística como um ato de preservação do eu e um ato de resistência. Além de ser um lugar de alegria e de experiência da beleza. Isto está em perfeita sintonia com as minhas próprias experiências e convicções.
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FRIDA ORUPABO

Cloud of Confusion

Curadoria: Marta Mestre

03.06 — 01.11.26
MAC/CCB




















