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OPINIÃO


Dominique Gonzalez-Foerster,”Roman de Münster”.


Dominique Gonzalez-Foerster,”Roman de Münster”.


Bruce Nauman, “Square Depression”.


Clemens von Wedemeyer, “Von Gegenüber”.


Guy Ben-Ner, “I'd give it to you if I could, but I borrowed it”


Mike Kelley, “Petting Zoo” (Streichelzoo).


Martha Rosler, “Unsettling the fragments”.


Tue Greenfort, “Diffuse Einträge”


Susan Philipsz, “The Lost Reflection”.


Rosemarie Trockel, “Less sauvage than others”.

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VICTOR PINTO DA FONSECA

2016-02-16
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2016-01-06
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CONSTANÇA BABO

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LÍGIA AFONSO

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SEXO, SANGUE E MORTE

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O edifício como “BLOCKBUSTER”. O protagonismo da arquitectura nos museus de arte contemporânea

RUI PEDRO FONSECA

2007-04-03
A ARTE NO MERCADO – SEUS DISCURSOS COMO UTOPIA

ALBERTO GUERREIRO

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Gestão de Museus em Portugal [2]

ANTÓNIO PRETO

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BIO-MUSEU: UMA CONDIÇÃO, NO MÍNIMO, TRIPLOMÓRFICA

COLECTIVO*

2006-06-14
NEM TUDO SÃO ROSEIRAS

LÍGIA AFONSO

2006-05-17
VICTOR PALLA (1922 - 2006)

JOÃO SILVÉRIO

2006-04-12
VIENA, 22 a 26 de Março de 2006


SKULPTUR PROJEKTE MÜNSTER 07



LÍGIA AFONSO

2007-09-04




O “skulptur projekte münster” é o mais democrático de todos os eventos artísticos de escala internacional. Fórum inclusivo, público, gratuito, festivo, lúdico e certeiramente realizado no centro da Europa, acontece no cenário idílico de Münster a cada dez anos desde 1977. Pioneiro na tradução expositiva das questões relacionadas com a cidade, o espaço urbano e a esfera pública, o seu desenvolvimento não segue um aparelho teórico determinante, contrariando a lógica conceptual da generalidade das mostras colectivas contemporâneas. A sua quarta edição promove uma necessária e pertinente reflexão sobre os desígnios da escultura enquanto disciplina equacionando, simultaneamente, o seu potencial transformador e a sua capacidade de intervenção crítica do e no espaço público.

Não é possível pensar Münster sem escultura ou escultura sem Münster. Estão indelével e historicamente interligados desde que a doação de George Rickey de uma obra sua à cidade provocou a indignação generalizada e a resistência dos residentes. O acontecimento motivou Klaus Bussmann, então curador do LWL – Landesmuseum für Kunst und Kulturgeschichte, a promover um debate alargado sobre arte moderna e contemporânea. Numa perspectiva pedagógica, organizou uma exposição histórica da escultura moderna no Museu e uma outra, paralela, no Schlossgarten. A polémica sobre a exposição, despoletada nos diversos media através da mobilização e participação popular, determinou-a de fulcral importância cultural para a cidade. A pacificação gradual do conflito e o entusiasmo crescente da comunidade permitiu a continuação do projecto em Münster (cidade alemã com um dos mais elevados níveis de qualidade de vida do mundo), onde assinala este ano trinta anos de existência.

No átrio do LWL, centro nefrálgico do projecto, é apresentada a primeira exposição retrospectiva do “skulptur projekte”. Comissariada por Brigitte Franzen, compila um arquivo de materiais preliminares à concepção das obras, sistematicamente reunidos e organizados por ano de realização. Desenhos originais, esboços, maquetas, modelos, correspondência, filmes, artigos de jornais ou comentários seleccionados, constituem o acervo documental do projecto em que participaram, ao longo de três décadas, cerca de 175 artistas. A exposição faz história da própria história da escultura reflectindo, a cada dez anos, as condições da sua produção e da sua inserção e recepção no espaço urbano. A não edição do catálogo desta exposição paralela é uma oportunidade perdida para a confirmação e validação da consistência programática do projecto.

Já ao catálogo da exposição “skulptur projekte münster 07” assiste uma qualidade estrutural irrepreensível, com destaque para o valiosíssimo glossário de conceitos e expressões teóricas relacionadas com o projecto e para a bibliografia alargada, ilustrada e comentada. Os projectos desta edição, justamente apresentados no catálogo, reflectem sobre a história do projecto e da própria cidade, contém referências mais ou menos directas a obras anteriores e dialogam abertamente com as trinta e nove esculturas permanentemente fixadas em Münster. É o caso de “Roman de Münster” obra em que Dominique Gonzalez-Foerster maquetiza, numa escala de 1:4, os trabalhos por ela seleccionados segundo uma perspectiva pessoal e biográfica como os mais relevantes de todas as edições do “skulptur projekte”, reunindo trinta e nove réplicas de obras de Ilya Kabakov, Tomas Schütte, Keith Haring ou Donald Judd, entre outras de autores históricos fundamentais. É também o exemplo de “Square Depression” de Bruce Nauman, uma monumental e performática pirâmide invertida, projectada para a exposição de 1977 mas apenas materializada em 2007. É, finalmente, a situação de “Münster Installation (Caravan)” de Michael Asher, uma caravana vintage que se move pelas ruas e habita, sempre que possível, os mesmos locais desde há trinta anos e se celebrizou como ícone do projecto expositivo.

Os três autores fazem parte do conjunto trinta e seis artistas internacionais (dos quais treze de nacionalidade alemã) que a tripla equipa curatorial (Kasper Köning + Brigitte Franzen + Carina Plath) convidou a fazer a exploração plástica da esfera pública da cidade nos seus mais variados aspectos, a partir dos tópicos Saúde, Recreação, Mundos Substitutos e Natureza. Apresentam trinta e quatro trabalhos que, sem surpresa, assinalam um radical redireccionamento dos suportes. A escultura dá agora lugar ao filme, ao vídeo ou à performance, que assumem total protagonismo nesta edição. A “ideia de escultura” é considerada pela equipa curatorial como fundamento conceptual dos trabalhos reunidos, mas a questão fundamental é saber se a “ideia” será ainda suficientemente reconhecível para lhe determinar a existência.

Os trabalhos respondem ao contexto urbano e apelam a participação pública activa, interagem com o ambiente, com as condições presentes em cada um dos lugares escolhidos, com a arquitectura e com a comunidade. Abrem-se à performatividade espontânea que o sentido não institucional de uma exposição isenta do peso constrangedor do museu (enquanto edifício e fenómeno cultural), deve promover. O percurso, pedestre ou de bicicleta, individualmente programado ou intuído, facilita a própria relação com a cidade e a sua apropriação pessoal. Muitas obras procuram uma localização não convencional, dispersas dentro do círculo definido pela promenade ou em extensão para fora do centro, entrando na natureza a partir das margens do lago Aa. A grande maioria dos trabalhos assume uma qualidade imaterial, uma crítica subtil e um sentido inesperado, transformando o “skulptur projekte münster 07” numa exposição de detalhes que arrisca, em última análise, a subversão da sua própria disciplina.

“Zone” de Mark Wallinger assume um protagonismo paradoxal à sua condição de invisibilidade. O trabalho determina uma espectacular circunferência de cerca de cinco mil metros, desenhada a linha de pesca no céu da cidade. A monumentalidade desta omnipresente escultura de céu impede o seu reconhecimento formal integral. O cruzamento do espectador com a obra é permanente mas fragmentário, também na medida em que o seu desenho é sistematicamente interrompido pelos edifícios onde se encontra suspensa. Encontrá-la não depende da capacidade de interpretação de um mapa-chave da exposição/cidade, mas da capacidade de transcendência para além do óbvio e do imediato. A obra demarca, simultaneamente, separação e unificação, exclusão e inclusão, lugar e não-lugar, matéria e anti-matéria, e resulta incontornável no contexto do projecto.

Gustav Metzger apresenta “Aequivalenz – Shattered Stones” (www.aequivalenz.com), uma acção transitória de registo não produtivo. Diariamente, um homem conduz uma grua até ao Westfällischer Kunstverein onde introduz uma palavra passe num computador cujo programa o informa da localização aleatória para onde deverá transportar um igualmente aleatório número de peças. A acção é fotografada e posteriormente colocada on-line, estabelecendo um paralelo documental com a obra “The Beggar´s Opera” (www.thebeggarsopera.org) de Dora García que, tal como a anterior, não tem lugar no mapa e contraria a tendência estaticizante de ocupação territorial característica das obras escultóricas. Aqui é um actor, um performer, um dândi, um novo cidadão-obra que deambula pela cidade como um mendigo que encontra em detrimento de se deixar encontrar, jogando com a lógica instituída de percurso dirigindo-se, ela própria, ao espectador.

Os filmes “Münsterlands” de Valérie Jouve e “From the Opposite Side” de Clemens von Wedemeyer documentam e ficcionam, em simultâneo, os percursos de habitabilidade permanente dos residentes e temporários dos visitantes da cidade. Se o primeiro é projectado numa inesperada sala de cinema improvisada numa passagem pedestre subterrânea, o segundo é exibido em loop contínuo no Metropolis, cinema histórico da cidade desactivado há oito anos, sem bancos (porque entretanto vendidos) e com a tela de projecção já queimada.

É ainda sobre o percurso artístico na cidade que o videofilme “I´d Give it to You if I Could, but I Borrowed it” de Guy Ben-Ner, filmado no LWL e apresentado numa instalação composta por três bicicletas de ginásio num gabinete de impostos, parodia. Num ecrã colocado entre o guiador de cada uma das bicicletas é exibido o filme cujo desenvolvimento é controlável pelo o espectador, consoante a velocidade e a direcção que imprimir ao pedal. Ben-Ner faz o relato lúdico, cómico e por vezes quase disparatado de uma ida familiar ao museu, na qual o artista e os seus filhos compilam os fragmentos de ready-mades de Picasso, Duchamp, Beuys e Tinguely para criar uma bicicleta que é posteriormente utilizada para percorrerem, em conjunto, a cidade de Münster. Ainda mais desconcertante, “Petting Zoo” de Mike Kelley põe em cena o episódio bíblico em que Lot abandona Sodoma e Gomorra. A sua mulher, transformada numa coluna de sal, determina o eixo central de uma tenda de zoo habitada por dez animais (póneis, cabras, galinhas, burros) que a lambem sistematicamente. A construção, em que se encontram ainda suspensos três ecrãs onde são projectadas imagens de formações rochosas, integra um parque temático com a caravana do tratador, um celeiro e uma discoteca, nas quais o visitante pode intervir alimentando e interagindo com os seus peculiares residentes.

Profundamente democratizadora, a obra “WC – Anlage am Domplatz” de Hans-Peter Feldmann propõe a transformação decorativa do WC público da Domplatz. Construído na década de 50 e renovado em 1987 aquando da visita do Papa à cidade, assistia-lhe o monocromatismo padrão e o mau-cheiro específico destes lugares públicos. Feldmann reformou as suas canalizações, colocou-lhes cerâmicas coloridas de alta qualidade, duas pinturas de grande formato e um luxuoso candelabro elevando, desta forma, a qualidade da sua utilização, sem sacrificar a sua condição de gratuitidade. De registo marcadamente histórico, “Unsettling the fragments” de Martha Rosler recompõe a memória da violência na cidade num jogo de duplicação de símbolos arquitectónicos reconhecíveis. Do conjunto das três instalações apresentadas destaca-se a realizada a partir de reproduções das jaulas de ferro originalmente colocadas (e ainda suspensas) na Igreja St. Lambert, onde em 1536 foram exibidos os corpos dos líderes Anabaptistas após a sua tortura e execução pública.

Nas margens do Lago Aa, “Diffuse Entries” de Tue Greenfort reflecte uma preocupação com o eminente colapso ecológico da cidade. Um tractor prateado dispara um jacto de água do próprio lago (artificial e poluído pela agronomia circundante) a grande pressão, cujo mau cheiro é intensificado com uma solução de cloreto de ferro. Sob a Torminbrücke, uma das pontes que atravessa o mesmo lago, Susan Philipsz apresenta “The Lost Reflection”, uma instalação sonora na qual a artista canta “Lovely night, oh night of love, smile upon our joys!” de “Tales of Hoffman” de Offenbach. A artista reencena a história da cortesã Julieta sem alterar o espaço mas apenas as condições da sua percepção, conduzindo o espectador à inevitável procura do seu reflexo contemplativo na água. Igualmente poética, “Less Sauvage Than Others” de Rosemarie Trockel é a grande aquisição do projecto para a cidade. Na mesma margem e no seguimento da obra de Philipsz, a sua construção courbet-duchampiana, realizada a partir de dois blocos de arbustos colocados lado a lado, recorta uma passagem que introduz o espectador à espectacularidade da paisagem que a obra define, põe em causa, modifica e reclama para dentro de si.

Com um extenso programa paralelo de mais de quarenta eventos entre filmes, debates, conversas com artistas e um complexo projecto educativo que inclui visitas de autocarro, de bicicleta e percursos pedonais, o “skulptur projekte münster” atinge uma participação activa muito significativa. Provocadora das audiências, presta-se a ser ela própria provocada pela intervenção crítica directa dos seus espectadores, tendo-se tornado mediático o desaparecimento não esclarecido da caravana de Asher durante dois dias.

Ao alargamento formal do projecto assiste o perigo de começar a ver obras onde estas não existem. As ténues fronteiras das obras com simples marcações de território urbano, não podem eclipsar o resultado e o sentido da criação artística. A eminência do perigo é, este ano, controlada pela elevada qualidade da generalidade dos trabalhos apresentados e pela selecção estratégica das suas localizações. Imaginar o desenvolvimento conceptual das obras a apresentar na próxima edição é, dada a inflexão tipológica das práticas de trabalho e o esgotamento progressivo dos espaços disponíveis, praticamente impossível. Münster pode reagir ao fenómeno com o acréscimo do seu enfoque teórico, beneficiando do período reflexivo dos dez anos que lhe restam. O debate assume absoluta pertinência na contemporaneidade artística e cultural. Afinal, o que é a escultura hoje?


Lígia Afonso


skulptur projekte münster 07
17 Junho – 30 Setembro