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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição MÁS GRAVES de June Crespo, 2026. Kunsthalle Lissabon. © Bruno Lopes


Vista da exposição MÁS GRAVES de June Crespo, 2026. Kunsthalle Lissabon. © Bruno Lopes


Vista da exposição MÁS GRAVES de June Crespo, 2026. Kunsthalle Lissabon. © Bruno Lopes


Vista da exposição MÁS GRAVES de June Crespo, 2026. Kunsthalle Lissabon. © Bruno Lopes


Vista da exposição MÁS GRAVES de June Crespo, 2026. Kunsthalle Lissabon. © Bruno Lopes


June Crespo, No osso (occipital) (I), 2026. Kunsthalle Lissabon. © Bruno Lopes


June Crespo, No osso (occipital) (I), 2026. Kunsthalle Lissabon. © Bruno Lopes


hyle, 2026. Peça de som, 24'. Estanis Comella em colaboração com June Crespo. Kunsthalle Lissabon. © Bruno Lopes


hyle, 2026. Estanis Comella em colaboração com June Crespo. Kunsthalle Lissabon. © Bruno Lopes

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ARQUIVO:


JUNE CRESPO

MÁS GRAVES




KUNSTHALLE LISSABON
Rua José Sobral Cid 9E
1900-289 Lisboa

24 JUN - 05 SET 2026

Esculpir a passagem, desdobrar materiais: os más graves de June Crespo


June Crespo (Pamplona, 1982) está em exposição na Kunsthalle, em Lisboa, até 5 de setembro de 2026. A escultora basca vem de uma recente exposição individual no Museu Guggenheim Bilbao (2024), Vascular, e de uma também recente integração na exposição internacional The Milk of Dreams, na 59.ª Bienal de Veneza (2022). Em Lisboa, uma única obra ocupa uma parede de 12 metros quadrados da pequena galeria localizada em Xabregas.

A investigação de Crespo debruça-se sobre as relações entre corpo, arquitetura, moldagem industrial e transformação da matéria. Inscreve-se num conjunto de práticas que hoje deslocam a atenção da representação para a agência dos materiais e participa de um zeitgeist artístico atento às infraestruturas, às zonas de contacto entre o orgânico e o inorgânico e às assemblages da matéria. O seu repertório escultórico circula entre alumínio, fibra de vidro, betão, resinas, tecidos e elementos industriais, compondo corpos instáveis que evocam espaços de construção, passagem, ruína e circulação.

As formas que produz expressam um estado de permanente transição: nem inteiramente orgânicas, nem plenamente industriais, assemelham-se a corpos infraestruturais. A escultura aparece como um lugar de contacto entre processos materiais e modos de ocupar o espaço, resvalando numa espécie de não lugar constante, em que é a própria matéria que cria e desfaz as possibilidades de sentido.

Nessa orfandade significativa, encontramos, por um lado, a vibração quase pura das matérias e dos seus impensados encaixes. Por outro, uma aproximação sugerida aos não-lugares, aos rastros e aos resquícios: aquilo que com dificuldade se deixa moldar, que não integra um campo rápido de assimilação estética e, ao mesmo tempo, ressoa pela própria matéria, que reivindica uma inóspita e quase impossível neutralidade.

 

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É através da materialidade da passagem como experiência estética que eu pensaria a obra de June Crespo na Kunsthalle. Em uma parede de 12 metros quadrados, uma única obra ocupa o pequeno espaço da galeria.



Trata-se de um corpo escultórico de grande densidade volumétrica, formado por condutas de ventilação e lonas de transporte. Está acompanhada por uma peça sonora denominada hyle, desenvolvida por Estanis Comella em colaboração com Crespo. A composição sonora não funciona como mero acompanhamento: ela parece emanar da própria peça, como se a embalasse ou dela emergisse, prolongando-lhe a presença para além do volume.

A atmosfera é a da passagem. Tubulações de espaços de circulação, pedaços de metro, rodovias despovoadas, sinalizações angulares. Não se trata de uma passagem metafísica. Tudo é bem material em uma composição que articula partidas e recuos, superfícies e interrupções sem qualquer metafísica. Estamos diante de lona e alumínio. E não há nada a ser encontrado no interior.

É sobretudo a força dos materiais que produz a atmosfera da obra, juntamente com a sua escala, que se impõe no espaço expositivo como um corpo ligeiramente deslocado, mas que ao mesmo tempo remete às dimensões colossais das infraestruturas que povoam a paisagem contemporânea.

A obra faz comparecer um entre-lugar. Um pedaço de memória de circulação, sem nenhuma razão ou vontade de conduzir a qualquer destino. Indo além do paradigma ecológico que hoje organiza parte significativa da produção artística, ainda que sem abandoná-lo completamente, Crespo dirige-se para a vibração material da infraestrutura, para a eventual agência da própria matéria. Ela mesma, a materialidade, a condição da experiência. Sem intenção de narração ou representação, a escultura acompanhada da composição almeja destacar ou reorganizar os campos de ressonância entre matéria, espaço e som.

Se observado o desenvolvimento da prática de Crespo ao longo do tempo, percebemos que a artista trabalha com um repertório de materiais que circula entre o industrial e o mineral, entre o fabricado e o inorgânico. São materiais dotados de peso, densidade e resistência, tensionados por elementos de leveza, equilíbrio e suspensão. Esse repertório evoca, por si mesmo, determinados espaços, trazendo ao de cima uma ressonância mnemónica através, não da forma, mas da materialidade.

Nesse sentido, espaços de construção, passagem, ruína, resíduos e rastros são reformulados pelo gesto escultórico da artista, embora sem se cristalizarem numa estrutura formal plenamente estabilizada. Nesse contexto, as peças parecem carregar inolvidavelmente o peso das suas próprias origens, reconfigurando a experiência estética pela própria escolha original dos materiais.

Do ponto de vista compositório, a artista aparece com um gesto, sobretudo, de trazer a presença, recusando solidificar o trabalho em significações exteriores. Ainda que cada peça pareça aspirar a ultrapassar a sua própria condição material, ela retorna continuamente a si mesma, evidenciando assim uma espécie de organismo infraestrutural em que a matéria aparece como agente sensível, sonoro e vibrátil.

 


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Sugeridas passagens e zonas intermédias da experiência contemporânea marcadas pelo fragmento, pelo rastro, pelo deslocamento, pela ausência de lugar e pelas infraestruturas da circulação, há também uma espécie de desabitação existencial operacionalizada pela ausência de qualquer horizonte interpretativo.

Não estamos diante de uma ideia previamente concebida e posteriormente realizada através dos materiais: os materiais não são meios para um fim, mas quiçá um fim em si mesmo, determinando as possibilidades e limites do constrangimento físico entre massas, pesos, tensões e encaixes.

Nesse cenário de certa autonomia dos materiais, ao lado de uma recusa de uma forma previamente fechada, ficamos a pairar entre as ressonâncias trazidas pela lona de transporte e os tubos de ventilação que o atravessam, uma vez que a relação entre matéria e forma não faz emergir uma lógica de articulação legível a partir da sua própria abertura.

Essa obra aberta, poderíamos dizer, deixa entrever um mundo em que a construção e a composição se diluem em favor de uma coexistência durável, e em que a ressonância dos próprios elementos parece emergir com tanta ou mais força do que a forma, ou do que a articulação entre forma e matéria.

A artista desloca, assim, a experiência para um campo onde a presença antecede a interpretação e onde a infraestrutura deixa de ser apenas suporte para se tornar acontecimento estético. O que permanece não é uma imagem memorável nem uma narrativa a decifrar, mas a persistência física de materiais.

A obra afirma-se, assim, como um lugar de passagem que conduz às suas propriedades: pesada, vibrátil, opaca, atravessada, irredutível. É nessa suspensão entre presença e indeterminação que a exposição encontra a sua singularidade, deixando aberto não só um campo de ressonâncias possível, mas também a sugestiva ideia de que a relação entre matéria e estrutura aparece de forma repensada.

 

 

Mariana Varela




É escritora e poeta. Publicou Enigmas de Jaguar e Jasmim (2019) e Rotativa (2022) ambos pela editora Urutau. Editou a mini-revista literária Frente! e edita atualmente a revista literária Letra Lenta. Mestre em Sociologia, faz doutoramento em Filosofia e escreve artigos na Intersecção da Filosofia e da Estética. Está publicada em revistas e antologias.

 



MARIANA VARELA