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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição Rosa Barba. Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Artecapital


Rosa Barba, Wirepiece, triple stops, 2025. Projetor 16 mm, filme 16 mm, lente, corda de tambor, peça de ponte, microfone. Vista da exposição CAM Gulbenkian. © Bruno Lopes


Rosa Barba, Solar Flux Recordings, 2022. Mesa, placas de vidro, filme 35 mm, projetor, looper, 11’. Vista da exposição Rosa Barba: Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Artecapital


Vista da exposição Rosa Barba. Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Bruno Lopes


Rosa Barba, Stating the Real Sublime, 2009. Filme 16 mm, projetor modificado, loop, 2’30’’. Vista da exposição Rosa Barba. Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Artecapital


Vista da exposição Rosa Barba. Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Artecapital


Rosa Barba, One Way Out 2009 Filme de 16 mm, som ótico, projetor, ventilador, tubo. Vista da exposição Rosa Barba. Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Artecapital


Vista da exposição Rosa Barba. Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Bruno Lopes


Rosa Barba, A Shark Well Governed, 2017. Filme 35mm, escrito à mão com tinta, caixa de luz, motores. Vista da exposição Rosa Barba. Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Artecapital


[Pormenor] Rosa Barba, A Shark Well Governed, 2017. Vista da exposição Rosa Barba. Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Artecapital


Rosa Barba, Isolation of Information (Roller), 2015. Tinta de impressão para linóleo sobre cera. Vista da exposição Rosa Barba. Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Artecapital


Vista da exposição Rosa Barba. Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Artecapital


Vista da exposição Rosa Barba. Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Artecapital


Rosa Barba, Off Splintered Time, 2021. Vidro, motores, luz LED, filme de 35 mm. Vista da exposição Rosa Barba. Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Artecapital


Vista da exposição Rosa Barba. Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Bruno Lopes


Vista da exposição Rosa Barba. Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Bruno Lopes


[Pormenor] Rosa Barba, Spacelength Thought, 2012. Filme 16 mm, projetor, máquina de escrever. Vista da exposição Rosa Barba. Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Artecapital


Vista da exposição Rosa Barba. Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Artecapital


Vista da exposição Rosa Barba. Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Bruno Lopes


Rosa Barba, Lines Within and Between Are Seldom Pieced Off With Neat End Punctuation, 2023. Filme 35 mm, moldura de alumínio, motores, vidro acrílico. Vista CAM Gulbenkian. © Artecapital


Vista da exposição Rosa Barba. Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Bruno Lopes


Vista da exposição Rosa Barba. Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Bruno Lopes


Vista da exposição Rosa Barba. Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Bruno Lopes


[Pormenor] Rosa Barba, Language Infinity Sphere (recording), 2018. Tinta de impressão em linóleo sobre tela. © Artecapital


Rosa Barba, Stellar Populations. 2017–2022. Filme 35 mm, caixa de luz, motor, esferas de aço inoxidável. Vista da exposição Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Bruno Lopes


Rosa Barba, Myth and Mercury, 2025. Filme 35 mm, cor, som ótico, 22’. Vista da exposição Rosa Barba. Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Bruno Lopes


Rosa Barba, Myth and Mercury, 2025. Filme 35 mm, cor, som ótico, 22’. Vista da exposição Rosa Barba. Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Bruno Lopes

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ARQUIVO:


ROSA BARBA

DESENHAR VOCABULÁRIOS




CAM - CENTRO DE ARTE MODERNA
Rua Dr. Nicolau de Bettencourt
1050-078 Lisboa

16 MAI - 28 SET 2026


 

[English version]

 

O tempo é uma ilha de edição.

 

Giovanni Battista Della Porta, natural de Nápoles, foi um mago-cientista, filósofo, cosmólogo e dramaturgo que escreveu, em 1558, Magia Natural. Livro que, historicamente, está inscrito no período de uma importante revolução científica, onde a alquimia paulatinamente se afasta da tradição aristotélica e ganha um corpo progressivamente racionalista, cientificista e autónomo. 

Della Porta mantém um pensamento e um léxico ainda muito alquímico na revelação das suas descobertas: são os mistérios, os segredos, as formas e os ritmos da natureza que devem ser desvendados cuidadosamente pelo cientista, afastando-se radicalmente de uma abordagem tirânica e extrativista que poderia ser representada por Francis Bacon. 

Della Porta foi uma figura fundamental para os estudos da ótica, tendo sido um dos pioneiros na comparação da câmara obscura com o olho humano — a pupila como a abertura e a retina como a tela de projeção — ; tendo explorado a refração da luz e o comportamento dos raios luminosos em diferentes meios, e introduzido o uso de lentes de cristal e espelhos côncavos para melhorar o foco e tornar as imagens projetadas mais nítidas. Influenciou, com isso, a posterior criação da lanterna mágica e dos telescópios.

Atualmente, dada a banalização das imagens que povoam constantemente a nossa vida, talvez não se possa ter noção de como a projeção de imagens por meio de dispositivos óticos nessa altura ganhava contornos abismais que aproximavam esses fenómenos do mágico e do fantasmagórico.

Como a imagem de algo poderia estar onde não está? Que mecanismo é este que permite que uma coisa esteja e não esteja ao mesmo tempo? Que se descorporifique e corporifique, que produza efeitos e que se instale nos sentidos humanos como se estivesse connosco?

Della Porta ensina, em Magia Natural, como podemos alcançar a visão daquilo que está imensamente longe — ou até do que já não está mais aqui. O telescópio, o cinema, a fotografia, e a projeção de imagens têm, afinal, esta mais fundamental semelhança, característica e capacidade: o acesso à imagem do que já não está aqui, o seu transporte espaço-temporal, sua movimentação cósmica por meio de um conjunto de dispositivos e de procedimentos que envolvem, sobretudo, os mistérios da luz.

  


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Rosa Barba, Color Clocks: Verticals Lean Occasionally Consistently Away from Viewpoints [Relógios Coloridos: Verticais Inclinam-se Ocasionalmente Consistentemente para Longe dos Pontos de Vista], 2012. Filme de 35 mm, motores, alumínio, plexiglass. Vista da exposição Rosa Barba: Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Artecapital
 

 

O CAM - Gulbenkian recebe, de 16 de maio à 28 de setembro, a exposição de Rosa Barba, Desenhar Vocabulários. A artista visual italiana chega a Portugal depois de uma recente exposição no MoMA (2025), já tendo passado pela Tate (2023), pelo Pompidou (2023), Reina Sofía (2017) e MAXXI (2014); e depois de ter ganhado, no ano de 2026, o Zurique Art Prize. Isso para dar uma dimensão da sólida presença da artista no contexto contemporâneo internacional. Barba trabalha, sobretudo, a relação imbricada do cinema, a escultura e a arquitetura, reinventando a forma cinética em experimentações de cinema expandido.

Suas exibições caracterizam-se por uma abertura da maquinaria fílmica para torná-la um artefacto ao mesmo tempo escultural e arquitetónico: Barba revela e modifica o funcionamento da máquina projetiva; experimenta e reorganiza suas peças; e põe-nas a trabalhar sinfonicamente com o espaço. Revela, no seu trabalho, um forte apreço pelas formas fílmicas, que se tornam verdadeiras esculturas, e um forte carácter conceptual do seu trabalho, evidenciando tanto na forma expositiva quanto na abordagem daquilo que envolve o cinema: a projeção de imagens, a realidade enquanto fenómeno temporal e a sua relação com a física e a astronomia.

No CAM, encontra-se constituído assim um espaço expositivo que mistura a produção e a projeção fílmica, unindo verso e reverso em novas formas escultóricas. Nesse espaço, o dentro e o fora deixam de operar como categorias relevantes: trata-se de um ambiente esteticamente maquinal e projetivo, em que aquilo que vemos surge através dos próprios dispositivos que o constituem. O que aparece não se separa das condições materiais da sua aparição; pelo contrário, revela-as. Ao aproximar-se, enquanto cinema expandido, de procedimentos associados ao construtivismo e ao brutalismo, o trabalho de Barba faz da visibilidade material um princípio formal. Trata-se de um gesto de dissolução das fronteiras entre suporte e imagem, processo e obra, interior e exterior.

Mas a sua força conceptual, até onde posso ver, não é só uma questão formal: ela alcança também os princípios físicos de constituição da realidade, aproximando o cinema dos mistérios da luz e do tempo, da astronomia e da viagem. Vejamos, por exemplo, o trabalho In play (Hopscotch), 2024. Dotado de um forte carácter racionalista, matemático e combinatório, a peça flerta ao mesmo tempo com a programação algorítmica da produção das imagens e com os processos de construção da realidade enquanto evento processual. Nesse trabalho, por meio da abstração de elementos combinatórios, uma imagem, mas também um ponto espaço-temporal, são criados, dissolvendo-se logo em seguida; voltando a aparecer em outro momento.

 

Rosa Barba, In Play (Hopscotch) [A Jogar (Macaca)], 2024. Filme de 35 mm, moldura de alumínio, motores, vidro acrílico, luzes LED. Vista da exposição Rosa Barba: Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Bruno Lopes



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É preciso considerar que Barba é professora de Art in Space and Time no Departamento de Arquitetura da ETH Zurich. O que sugere que talvez não estejamos diante de um tratamento meramente estético de questões conceituais, mas de experimentações materiais que procuram estabelecer uma comunicação com os enigmas da luz, da duração e da construção da realidade enquanto evento cosmo-lógico.

A composição de um espaço ele mesmo performático, atravessado por peças que se comunicam entre si em um corpo projetivo, de peças e eventos criados in-site-specific pode ser compreendida como uma espécie de estilização do real enquanto forma combinatória de acasos e acontecimentos. Ou seja, enquanto jogo de chance e probabilidade programada, em que o infinito e a ocasião aparecem enquanto matéria prima que organiza tanto as formas matemáticas como a própria realidade.

Por outro lado, é incontornável que o trabalho de Barba contém um forte componente estético: suas exposições apresentam esculturas de máxima elegância e de forte carga de sentido e beleza, além de uma estética expositiva própria — isto é, uma forma singular de abordar as questões que lhe são caras e inscrevê-las enquanto estilo. Essa estética não remete à particularidade de uma obra, mas atravessa toda a exposição, pincelada por uma ampla utilização de linhas retas, estruturas geométricas, o uso do vermelho e do amarelo enquanto cores primárias e o uso de dispositivos dotados de matemática rítmica. 


Há uma sugestão estética evocada por algumas de suas obras que remetem às experiências da Arte Programmata italiana dos anos 1960, que também se dedicou a pensar a arte cinética e a interação combinatória e construtiva na produção das imagens. Mas no trabalho de Barba, também pela forte componente cinematográfica e projetiva do seu trabalho, não estamos diante de uma exposição que pensa as máquinas exatamente enquanto promessa, mas enquanto artefacto de reorganização temporal e material do espaço. Ou seja, também enquanto espectro, fantasma e reconfiguração espacial. 



Assim, ainda que as instalações de Barba mantenham ecos do construtivismo e das experiências lumínicas de Moholy-Nagy na Bauhaus, Barba avança em direção a uma fantasmagoria cinematográfica situada, trazendo à presença uma renovada arquitetura no espaço expositivo e vinculando-o a outros espaços geográficos, trazidos à vida por meio do uso de filmes e imagens projetadas.



Filmes como Myth and Mercury, que está na exposição do CAM, mostram como o trabalho de Barba está voltado para um espaço verdadeiramente expandido — o fundo do mar, o mediterrâneo, a geografia desértica. E de que maneira Barba tateia a conexão entre tempo e geografia. Em Myth and Mercury, marcado também pela figura de Antonio Gramsci e seus cadernos prisionais, lado-a-lado com as imagens de um procissão católica, há uma certa deep-melancoly que registra temporalidades ao mesmo tempo históricas e cósmicas. O uso de filmes de 35mm e 16mm também concedem ao filme um ar que já nasce um pouco antigo — implicando na própria materialidade as questões temporais elencadas.



Nesse sentido, talvez seja interessante sublinhar novamente o facto de que, ao olhar para o cosmos, sempre podemos estar diante de imagens de corpos celestes que já não existem mais. Mas que, ao mesmo tempo, pelos mistérios da luz — existem. É esta precisamente a raison d’être do encontro entre dispositivos óticos, cosmologia e os mistérios do espaço-tempo. Nesse encontro, a própria realidade, sendo uma realidade temporal, contém também os seus aspectos fantasmagóricos. Mesmo sem as imagens conseguimos chegar lá. Se, por um lado, Gramsci (Myth and Mercury) não está mais aqui connosco; não deixa de ser também uma verdade que — pela força da história e pela sua lembrança — ele ainda está.

 

Rosa Barba, Myth and Mercury [Mito e Mercúrio], 2025. Filme em 35 mm, cor, som ótico, 22’. Stills do filme © Rosa Barba. Encomendado por Fondazione MAXXI e pelo CAM – Centro de Arte Moderna Gulbenkian. Coproduzido por Fondazione In Between Art Film e por Hamburger Kunsthalle.

Vista da exposição Rosa Barba: Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Artecapital

 


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Talvez seja precisamente aí que o trabalho de Rosa Barba encontra novamente Della Porta. Não apenas na maquinaria ótica, nas lentes, nas projeções e nos dispositivos de luz, mas na percepção de que a imagem não é uma simples representação do mundo. Desde os espelhos côncavos da magia natural até os telescópios contemporâneos que observam galáxias enquanto vestígios luminosos de um universo que já não coincide consigo mesmo — ver sempre significou entrar em relação com algo que já não está inteiramente aqui.

Toda visão, nesse sentido, é atravessada por durações, distâncias e sobrevivências. O cosmos aparece menos como um conjunto fixo de objetos do que como uma imensa montagem de temporalidades em trânsito. Nesse sentido, as esculturas fílmicas de Barba aparecem como máquinas de percepção, elas mesmas redesenhadas, nossa percepção mesmo redesenhada pelo material, pela arquitetura e pelas imagens. Nas bordas dessa materialidade revisitada, paira a intuição de que o mundo não é constituído por coisas estáveis — mas por acontecimentos, ritmos de relação e processos de emergência.

O cinema aparece, assim, como uma das formas mais sofisticadas de organizar fantasmagorias de luz. Não para escapar do real — ainda que também o faça — mas sobretudo para sugerir que o próprio real já possui em si algo de espectral, de descontínuo e de astronómico.



  

Rosa Barba, Boundaries of Consumption [Fronteiras do Consumo], 2012. Filme de 16 mm, projetor modificado, bobinas de filme, duas esferas metálicas. Vista da exposição Rosa Barba: Desenhar Vocabulários, CAM Gulbenkian. © Artecapital
 

 

Desenhar Vocabulários talvez se trate, entre outras coisas, dessa espécie de estilização da perspectiva e da matemática temporal — e que passa ao mesmo tempo pelo cinema, pela astronomia e pelo próprio mistério de aparição da realidade. Nessa colagem cinética, há ressonâncias do passado no presente e há, também, um conjunto variável de camadas que interferem na emergência das coisas no espaço-tempo, tornando o presente possível e impossível. Nessas ressonâncias, em que as questões conceptuais são tornadas estéticas e questões estéticas revelam o conceptual, Barba prepara novamente uma próxima máquina.

 

 

 

 

Mariana Varela



É escritora e poeta. Publicou Enigmas de Jaguar e Jasmim (2019) e Rotativa (2022) ambos pela editora Urutau. Editou a mini-revista literária Frente! e edita atualmente a revista literária Letra Lenta. Mestre em Sociologia, faz doutoramento em Filosofia e escreve artigos na Intersecção da Filosofia e da Estética. Está publicada em revistas e antologias.

 



MARIANA VARELA