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COLECTIVABIENAL DE ARTE DE VENEZA DE 202609 MAI - 22 NOV 2026 A Memória enquanto Tema da Lusofonia
A Bienal de Veneza de 2026 começou no dia 5 de Maio, Dia da Cultura Lusófona. Esta coincidência de calendário revelou a memória como tema unificador da lusofonia. Os vários participantes exprimiram diferentes aspectos de uma cultura global, embora assumidamente reveladora das especificidades locais. Alexandre Estrela, em representação de Portugal, teve o seu pavilhão instalado no Fondaco Marcello, banhado pelo Grande Canal. A exposição é facilmente escrutinável tanto para quem percorre Veneza de vaporetto, como para quem circula pelas ruas da cidade. [Fig. 1] A instalação RedSkyFalls, salientou a curadora Ana Baliza, explora a forma como o mundo animal reage perante a iminência de um terramoto, tanto no ar como na água. Apresentada em Veneza e concebida a partir de Lisboa, esta obra procura mostrar o que acontece para lá da dimensão humana. Neste sentido – ao revelar uma realidade não antropocêntrica – coaduna-se com o tema da exposição, In Minor Keys (Em Tons Menores), que pretende tornar visíveis “as frequências mais baixas... em tempos terríveis”. [1] A instalação, activada em tempo real, funciona em ciclo contínuo (loop) com aproximadamente dois minutos de duração. Durante este período, os bichos representados nos ecrãs comportam-se de acordo com padrões observáveis na natureza: copulam, movem-se ao sabor do vento, e, perante uma sonorização abrupta, tornam-se agitados. Em paralelo, a paisagem natural, representada por uma imagem ready-made proveniente do tema macOS High Sierra da Apple, muda de cor. É neste momento que nos apercebemos que se trata de uma instalação que activa múltiplos sentidos. À visão e à audição junta-se uma dimensão táctil, produzida pela sensação física que percorre o corpo do visitante proveniente do efeito surpresa desencadeado pelo som estremecedor da composição sonora. [2] A experiência da obra ultrapassa a mera contemplação visual, e convoca a uma consciencialização de catástrofe iminente. [Fig. 3 e 4] A obra transmite uma mensagem de alerta num mundo marcado pela impermanência. Na história portuguesa, os terramotos constituem uma memória colectiva persistente, sendo o de 1 de Novembro de 1755 o exemplo mais conhecido e marcante. Foi exactamente este acontecimento que inspirou a obra de Estrela, concebida em 2019 e agora apresentada em Veneza, uma cidade tão vulnerável quanto resiliente, tal como a Lisboa reconstruída após a catástrofe oitocentista. Para o artista, o mais importante é escutar os sinais da natureza, interpretar os avisos que ela nos transmite e reconhecer a vulnerabilidade do nosso presente. O pavilhão do Brasil apresentou Comigo-Ninguém-Pode, uma exposição com curadoria de Diane Lima, e com obras de Adriana Varejão e Rosana Paulino, duas artistas mulheres que representam realidades contrastantes no Brasil. O título da mostra deriva do nome de uma planta, Dieffenbachia seguine, uma espécie ornamental amplamente utilizada em decoração de interiores em todo o mundo e conhecida pela sua toxicidade. No Brasil, esta planta é tradicionalmente colocada nas entradas das casas como símbolo de protecção espiritual e resiliência ancestral e ganhou uma conotação popular que deu origem a significados como ‘Ninguém me controla’ ou ‘Não brinques comigo’. É igualmente o título de um desenho de Paulino, da série Senhora das plantas (2022–) e presente na exposição. [Fig. 4] Uma estratégia particularmente significativa delineada por Diane Lima é a constante coexistência entre as obras das duas artistas. Neste sentido, a fachada do pavilhão é especialmente reveladora: o elemento central, constituído por enormes azulejos coloniais de Adriana Varejão, contrasta com a contaminação das paredes do pavilhão por Rosana Paulino, através da proliferação de pequenos casulos de bicho-da-seda. Em conjunto, evocam tanto a centralidade histórica da ascendência portuguesa no Brasil, como a sua contínua interrupção pela ubiquidade dos elementos e pelas formações culturais africanas. Assim, embora a fachada reforce a intenção da curadora de dar igual destaque a ambas as artistas, o resultado revela as disparidades internas do Brasil e da memória que o define. Em vez de apresentar essas histórias separadas ou opostas – como foi feito ao longo da história – o encontro destas obras de arte (e de todas as que estão no interior do pavilhão), revelam o Brasil de hoje, continuamente hierarquizado e em permanente negociação. [Fig. 5] Situado nos Jardins Místicos das Carmelitas Descalças – um lugar especialmente calmo e perfumado, localizado junto à estação ferroviária de Veneza –, encontra-se o pavilhão da Santa Sé. [3] Trata-se da segunda participação do Vaticano na Bienal de Veneza, depois da presença na Bienal de Arquitectura de 2024. Proposto pelo Cardeal José Tolentino de Mendonça, o projecto The Ear is the Eye of the Soul tem curadoria de Hans Ulrich Obrist e Ben Vickers. A exposição constitui um convite ao contemplativo acto de escutar, inspirado na vida e no legado de Santa Hildegarda de Bingen (1098-1179). Esta abadessa beneditina alemã concebia o mundo como um sistema unitário, em que corpo, natureza e espírito se encontravam profundamente interligados, sendo o som um meio privilegiado para compreender a criação. [4] Em sintonia com o tema da Bienal, In Minor Keys (Em Tons Menores), que propõe prestar atenção a vozes, ritmos e percepções frequentemente ignorados, a apresentação da mostra no Jardim Místico – espaço historicamente reservado a práticas meditativas, ao silêncio e ao cultivo de ervas medicinais – ganha uma significação particular. Este ambiente dialoga directamente com o pensamento de Bingen, cuja obra articulava conhecimento espiritual, observação da natureza e práticas terapêuticas. Entre os vinte e quatro artistas convidados, conta-se a fadista portuguesa Carminho, cuja presença reforça a dimensão lusófona do projecto e acentua a questão acústica. Tal como os restantes artistas, a cantora interpreta e actualiza o legado espiritual de Bingen, tornando o seu pensamento capaz de contribuir para o momento contemporâneo. Paradoxalmente, a fragilidade ecológica dos jardins perfumados impõe fortes restrições ao acesso do público. Esta limitação não se encontrava devidamente assinalada nos materiais informativos da Bienal, o que impediu muitos visitantes – entre os quais a autora deste texto – a não conseguirem aceder a um dos pavilhões mais elogiados desta edição. Esta circunstância levanta importantes questões sobre o equilíbrio entre preservação patrimonial e acessibilidade pública, sobretudo num evento que tem lugar na Sereníssima Veneza e que, embora seja visto como as Olimpíadas da Arte, se pretende aberto ao diálogo e à participação cultural. [Fig. 6] De regresso ao seu lugar habitual em frente ao Arsenale, Macau apresentou a exposição Jacone’s Polyphony. O duo de curadores Feng Yan e Ng Sio Ieng propôs uma reinterpretação da vida e obra do pintor, poeta e missionário chinês Wu Li (1632-1718), convertido ao Catolicismo. Missionário jesuíta, Wu Li viajou para Macau em 1681, com a intenção de seguir para Roma e estudar teologia. Contudo, Wu Li (Jacone em português), nunca chegou à Europa, tendo permanecido em Macau durante oito anos. Eric Foi Hok Seng apresentou duas instalações, uma no exterior e outra no interior, ambas sustentadas por uma cuidada investigação histórica e documental (que ficciona). Para esta mostra, concebeu Floating Stones, uma instalação que combina a apropriação de poemas e imagens de arquivo. Entre estas, encontra-se um desenho do artista britânico George Chinnery (1774-1852), onde deliberadamente acrescentou a figura de Wu Li, reinscrevendo-o na história visual de Macau. [Fig. 7] No tríptico Sangu (A Capella Reverie), o artista O Chi Wai, em colaboração com o grupo vocal Water Singers, construiu uma nova narrativa em torno de Wu Li, através de três dimensões distintas: a sua interpretação dos arquivos históricos, apresentada a preto e branco; a experiência subjectiva do artista; e vestígios da presença de Wu Li em Macau. O resultado é uma instalação de carácter litúrgico, que evoca um tempo passado em que o catolicismo desempenhava um papel central na vida social e cultural do território, permanecendo hoje como memória colectiva. Nesta mostra, Wu Li surge como uma figura secundária da história, um missionário cuja ambição de chegar a Roma nunca se concretizou. Contudo, é precisamente essa condição marginal que sustenta a proposta curatorial. Ao recuperar a memória de uma personagem frequentemente esquecida, Jacone’s Polyphony responde eficazmente ao tema In Minor Keys (Em Tons Menores), dedicado às histórias periféricas, às vozes inaudíveis e às narrativas que ficam por contar nos grandes relatos históricos. A exposição dialoga ainda com a mostra principal da Bienal, através do uso intensivo de cartão prensado como elemento museográfico. Este material, omnipresente em Macau enquanto cidade portuária e entreposto comercial, funciona como suporte expositivo e metáfora das dinâmicas de circulação, de transporte e de troca cultural que marcaram a história de Macau. Assim, a materialidade da exposição reforça a reflexão sobre mobilidade, memória e encontro intercultural que atravessa todo o projecto. A apresentação de Timor-Leste, intitulada Across Words (Através das Palavras) mobiliza a memória cultural do país – etnográfica, histórica e contemporânea – de uma forma visualmente apelativa, na qual as três dimensões se entrecruzam e alimentam mutuamente. Ao centro do pavilhão, a obra histórica de Verónica Pereira Maia, Tais Don (1994-99), um painel têxtil concebido para honrar a memória das vítimas do Massacre de Santa Cruz, ocorrido a 12 de Novembro de 1991, estrutura simbolicamente todo o espaço expositivo. A complexidade técnica de incorporar o alfabeto num processo tradicional de tecelagem torna-se ainda mais significativa quando se considera que a artista era analfabeta. O trabalho transforma assim o tecido num instrumento de memória, resistência e de testemunho colectivo. No fundo do pavilhão, a obra vídeo de Juventino Madeira, Fraze ne’ebé seidauk hotu (Uma frase inacabada), comissionada para a Bienal de Veneza, narra a história recente do país através do olhar de uma mulher, a protagonista. Alternando entre a Díli rural e a urbana, o artista mostra a forma como a juventude timorense age sobre a herança da cultura vernacular, enquanto imagina e projecta o seu futuro. [Fig. 8] Durante a inauguração, Edson Caminha, trajado como guerreiro tradicional, deu voz a uma nação cuja existência política tardou a concretizar-se. Com CUALE (Fluxo), igualmente um trabalho realizado para o pavilhão da Bienal de Veneza, o artista sobrepõe sonoridades provenientes do português, do indonésio e do Tétum, língua que se tornou oficial após a independência em 2002. Segundo a curadora Loredanna Pazzini Paracciani, “estas camadas auditivas reforçam a ideia que a descolonização não consiste na imposição de uma linguagem única e unificada, mas antes numa luta produtiva e num fluxo constante entre todas elas”. [5] Mais do que uma categoria temática, a memória revelou-se um dispositivo crítico transversal às diferentes representações da lusofonia na Bienal de Veneza de 2026. Em contextos geográficos, históricos e culturais distintos, os pavilhões analisados convocaram memórias individuais e colectivas, traumáticas e celebratórias, materiais e imateriais, demonstrando a pluralidade de narrativas que compõem o espaço lusófono contemporâneo. Da evocação do terramoto de 1755 por Alexandre Estrela à reflexão sobre as heranças coloniais e africanas por Adriana Varejão e Rosana Paulino; da recuperação da figura esquecida de Wu Li em Macau à valorização histórica e cultural timorense, a memória surge não como um arquivo estático do passado, mas como uma prática activa de interpretação, negociação e reinvenção. Também o pavilhão da Santa Sé, ao privilegiar a audição, o silêncio e a contemplação, propôs uma forma de memória sensorial e espiritual que amplia a compreensão do que pode ser recordado e transmitido. Em sintonia com o tema In Minor Keys, estas propostas deram visibilidade a histórias marginais, a vozes silenciadas e a experiências frequentemente excluídas dos grandes relatos históricos. A Lusofonia emergiu, assim, não como uma realidade homogénea, mas como um espaço plural de memórias entrecruzadas, onde o passado permanece um elemento decisivo para compreender o presente e imaginar o futuro.
Leonor Veiga
Historiadora de arte e curadora residente em Montpellier, França. Investigadora integrada no Centro de Investigação e Estudos em Belas-Artes (CIEBA), foi investigadora e docente na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (2020–2023). Obteve o seu doutoramento na Universidade de Leiden (2018) com a dissertação The Third Avant-garde: Contemporary Art from Southeast Asia Recalling Tradition, actualmente em processo de edição.
Notas [1] Ver, Dossier de Imprensa, Red Sky Falls, p.16.
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Notas às legendas (detalhes técnicos) * Fig. 3.
Alexandre Estrela, Réplica (larva), 2025. Animação gerada por computador a partir de dados de comportamento animal, projectada sobre placa de alumínio gravada, 50 × 35.4 cm, som mono, sem fim. Engenharia de animação e som: Ian Duclos. Fotografia de Leonor Veiga ** Fig. 8. Verónica Pereira Maia, Tais Don, 1994–99. Tais têxteis, fios de algodão, corantes naturais; e Juventino Madeira, Fraze ne’ebé seidauk hotu (Uma frase inacabada), 2025–26. Instalação de vídeo. Produzido por Thomas Henning. Vista da instalação, Pavilhão de Timor-Leste na Bienal de Veneza. Fotografia de Cristiano Corte. Cortesia dos artistas e do Pavilhão de Timor-Leste na 61ª Bienal de Veneza.
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