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EXPOSIÇÕES ATUAIS


© Patrícia Geraldes / Ocupa Galeria


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ARQUIVO:


PATRICIA GERALDES

ALENTAR, AO ALENTO, ALIMENTO




GALERIA OCUPA
Rua do Bonfim, 422-424
4300-427 Porto

18 MAI - 06 JUL 2024


 

O espaço, outrora ocupado pelo “Santo Talho” deu lugar, desde 2019, à Galeria “Ocupa”, um projeto curatorial alternativo e independente que incide na criação de exposições de Arte Contemporânea de artistas nacionais e internacionais, emergentes e consagrados. De forma arrojada, alguns equipamentos que denunciam a funcionalidade anterior do espaço foram mantidos, permitindo uma diferenciação face à normatividade espacial do ‘cubro branco’ que, não obstante a sua neutralidade direcionar a atenção exclusiva para o objeto artístico, acarreta também alguma monotonia. A presença destes componentes anteriores cumpre-se, por um lado, na persistência da memória e, por outro, em servir novas utilidades, fomentando uma espécie de leitura heterotópica foucaultiana da sobreposição de espaços, à partida incompatíveis. O que nutre, de forma mais estimulante e desafiante, as fórmulas expositivas.

Consubstancia esta ideia, a exposição “Alentar, Ao Alento, Alimento”, da artista Patrícia Geraldes, patente, na galeria, entre 18 de maio e 6 de julho de 2024. As configurações plásticas e criativas em torno de elementos da natureza (terra, plantas, sementes e água) compõem as obras que são expostas, de forma profícua, atendendo às possibilidades que o espaço faculta. A narrativa surge, segundo a artista, em torno da necessidade de pensar a produção e a troca de alimentos como forma de fomentar as relações pessoais e a aproximação ao outro. Coadjuvante, importa pensar a intra-ação entre atores humanos e não humanos, como uma entidade viva e unificada. E a partir de aí adotar uma posição crítica (e política) direcionada para o desenvolvimento de uma consciência do “outro” e de práticas que considerem a ação imbuída de uma ética de cuidado e responsabilidade. Tal segue o alinhamento do pensamento de Donna Haraway que, no seu livro “Companion Species Manifesto - dogs, people and significant otherness” (2003), defende o termo naturezacultura, de forma a que se entenda que estes dois conceitos não devem ser vistos como oposições polares ou categorias universais. Assim, as políticas face aos mundos atuais da vida devem ter em atenção aspetos de coabitação, coevolução e sociabilidade corpórea entre espécies. E por espécies entende os seres orgânicos, os ciborgues, as plantas e flores, os insetos, a flora intestinal, entre outras, que influenciam a vida dos seres humanos e vice-versa. Ou seja, todas as relações são fundamentalmente ecológicas. Na mesma senda o conceito de wordling, aplicado por Tony Fry e, posteriormente, por Anne-Marie Willis à definição de design ontológico, carrega a premissa de que “humano” e “mundo” não são entidades separadas e autónomas. Pelo que se assume e aceita a ideia de circularidade do ser e do funcionamento do círculo hermenêutico que não pode ser reduzido ao unilateralismo do humano como determinante do ambiente e vice-versa.

 

© Patrícia Geraldes / Ocupa Galeria

 

Esta umbilicalidade entre as diferentes agências materiais, naturais e artificiais, orgânicas e inorgânicas, é transportada para o interior da pequena galeria que se vê pejada de frascos de vidro transparente, contendo água e diferentes produtos hortícolas, que se encontram pendurados, no teto, por fios de diferentes tamanhos. Tal leva a que os passos e a dinâmica corporal sejam marcados por um ritmo mais demorado, e comprometidos com o olhar que percorre o espaço de cima a baixo, e pelo contornar e desviar dos frascos quando estão fisicamente ao nosso alcance, na procura de conter a tentação do toque. É projetada uma envolvência pela quantidade e proximidade dos objetos, que não sendo totalmente imersiva, dirige a nossa atenção para o detalhe e para os odores que as plantas emanam. No balcão e na montra, amontoados de terra, que não ocupam inteiramente os respetivos espaços, acamam diferentes plantas. Revelando o contraste entre a frieza do alumínio e a matéria orgânica, entre o perene e o perecível. Pela galeria ouve-se a voz do artista André Alves que, acompanhado pelo som de uma harpa, declama o seu poema “Ao lento” (2024) que nos fala desse enlace vital e visceral entre o(s) corpo(s) e o(s) tempo(s). Seguimos até ao pequeno cubículo que, antigamente, serviu de câmara frigorífica, e que remata a exposição. Uma escultura de ervas medicinais, ao centro, é envolvida pela energia calorífica da luz amarela, que nela incide, proveniente de uma única lâmpada. Há, de certa forma, uma nobilitação na forma como a escultura foi modelada, não obstante a sua fragilidade, e como foi exposta num espaço somente a ela dedicado, enfatizando-a. O que nos direciona para a importância que as plantas têm na subsistência da vida na Terra, continuando a ser princípios ativos de medicamentos, determinantes na produção de oxigénio e como alimento na cadeia alimentar, e ainda usadas na construção de habitações e produção de utensílios (madeira).

 

© Patrícia Geraldes / Ocupa Galeria

 

Através dos avanços científicos há um conhecimento cada vez mais apurado sobre o funcionamento das plantas. Numa escrita fluída, Stefano Mancuso espelha esse saber no seu livro “A Revolução das plantas - Como a inteligência vegetal está a inventar o futuro do planeta e da humanidade” (2019). Explica o botânico que as plantas, mesmo sem qualquer órgão semelhante a um cérebro central, conseguem perceber com sensibilidade o ambiente que as rodeia, fazem análises sofisticadas de custo-benefício, e respondem apropriadamente aos estímulos ambientais, sendo resistentes a eventos catastróficos sem perderem funcionalidade. Além disso, aprendem com a experiência e têm mecanismos próprios de memorização. E a sua composição é modular, cooperativa, e distribuída sem centros de comando.

Ao abordarmos as plantas, há uma lógica em evocar os solos (e não é em vão que na exposição aparecem de forma declarada) principalmente devido ao seu preocupante desgaste, resultado de práticas agrícolas intensivas, nas quais as monoculturas dependem de níveis consideráveis de pesticidas, fertilizantes e outros aditivos, para responderem às exigências da produção de alimentos. Em “Matters of care: Speculative Ethics in More than Human Worlds” (2017), Maria Puig de la Bellacasa apologiza a ideia de repensar o solo como um mundo vivo de multiespécies (incluindo o ser humano), e não uma substância inerte. Os solos devem ser vistos como ecologias ameaçadas, que necessitam de intervenções urgentes, devido à negligência causada pelo excesso de produção. A autora cimenta a ideia de ecologias de cuidado práticas, éticas e afetivas, atendendo as relações entre humanos e não humanos. Disso são exemplo os modelos de “Food Web” (teia alimentar), que se tornaram proeminentes a partir da década de 1990. Estes modelos comprometem-se: com o entendimento da complexidade que caracteriza as interações entre as espécies que permitem a circulação de nutrientes e energia; e com a experiência temporal no cuidado do solo, ou seja, há que atender a uma diversidade de temporalidades interdependentes de seres e coisas. Considerando que as espécies da cadeia alimentar do solo podem incluir bactérias, fungos, algas, protozoários, minhocas, animais maiores como os coelhos, plantas, entre outras.

No seio da azáfama citadina, até porque a galeria não fica assim tão longe do centro da cidade, a exposição de Patrícia Geraldes surge, desta forma, como um reduto para a fruição e reflexão acerca da natureza e, particularmente, sobre as práticas atuais de cultivo, o consumo de alimentos, as complexas relações interespécies associadas, e a ação humana vergada ao capitalismo. O visitante, se assim o entender, pode explorar e aprofundar conhecimentos, até porque o exercício de ‘leitura’ de uma exposição não tem, necessariamente, que se circunscrever ao tempo que se permanece no espaço artístico. Sendo possível partir para uma ação, no quotidiano, de forma mais consciente, informada e, neste caso, eco-ética. Alenta-se, assim, a conjugação entre a arte, como eterno alimento da alma, e o compromisso de proteger os solos e perspectivar relações interespécies cuidadas, com vista à produção mais sustentável de alimentos.

 


Sandra Silva
Licenciada em História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e mestre em Estudos Artísticos - variante Estudos Museológicos e Curatoriais, pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, com uma dissertação sobre a interligação entre arte e ciência. Dedica-se à investigação independente, com particular interesse pelos diversos temas da arte e curadoria contemporânea.


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Referências bibliográficas

Haraway, D. (2003). The companion species manifesto: dogs, people and significant otherness. Prickly Paradigm Press. 
Mancuso, S. (2019). A Revolução das plantas - Como a inteligência vegetal está a inventar o futuro do planeta e da humanidade. Lisboa: Pergaminho
Puig de la Bellacasa, M. (2017). Matters of care: Speculative ethics in more than human worlds. University of Minnesota Press
Willis, A. M. (s.d.). Ontological Designing — laying the ground. 



SANDRA SILVA