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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição Dueto, Joan Jonas e Maria Paz. © Renato Cruz Santos / Galeria Municipal do Porto


Vista da exposição Dueto, Joan Jonas e Maria Paz. © Renato Cruz Santos / Galeria Municipal do Porto


Vista da exposição Dueto, Joan Jonas e Maria Paz. © Renato Cruz Santos / Galeria Municipal do Porto


Vista da exposição Dueto, Joan Jonas e Maria Paz. © Renato Cruz Santos / Galeria Municipal do Porto


Vista da exposição Dueto, Joan Jonas e Maria Paz. © Renato Cruz Santos / Galeria Municipal do Porto


Vista da exposição Dueto, Joan Jonas e Maria Paz. © Renato Cruz Santos / Galeria Municipal do Porto


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Vista da exposição Dueto, Joan Jonas e Maria Paz. © Renato Cruz Santos / Galeria Municipal do Porto


Vista da exposição Dueto, Joan Jonas e Maria Paz. © Renato Cruz Santos / Galeria Municipal do Porto

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ARQUIVO:


JOAN JONAS E MARIA PAZ

DUETO




GALERIA MUNICIPAL DO PORTO
Palácio de Cristal Rua D. Manuel II
4050-346 Porto

16 SET - 19 NOV 2023


 

 

Dueto é uma exposição que se faz de encontros: o encontro da curadora Filipa Ramos, numa montra do Porto em 2022, com as grandiosas e coloridas esculturas cerâmicas de Maria Paz (1998, Porto); o encontro da artista portuense com a singular e enigmática prática artística de Joan Jonas (1936, Manhattan) durante a retrospectiva que o Museu de Serralves lhe dedicou em 2019; e por fim o encontro de ambas em Munique e a certeza de uma exposição conjunta, que agora se materializa na Galeria Municipal do Porto [1].

A diluição das tradições vernaculares e contemporâneas na cerâmica perpassam o corpo de trabalho de Maria Paz em obras cuja organicidade das formas, liberdade e explosões cromáticas se estendem de igual modo ao campo pictórico, numa exposição – a sua primeira institucional - que reúne trabalhos recentes da artista, revelando-nos uma variedade de meios e suportes e uma forma de pensar o espaço que a aproximam da artista americana. Ao longo das últimas cinco décadas Jonas tem desenvolvido uma linguagem formal única, cruzando desenho, vídeo-instalações e performance. Na presente exposição mergulhamos, através de duas instalações da artista nunca antes exibidas no Porto, em narrativas visuais que inspiradas na literatura e ciência, funcionam como metáforas do espaço oceânico inexplorado, revelando de modo harmonioso a beleza e o poder avassalador da água e as maravilhas de um mundo frágil e vulnerável.

Como num jogo, num percurso labiríntico cujo caminho e camadas de significação procuramos desvendar, deixamo-nos envolver pela experiência imersiva que Joan Jonas nos oferece a partir da instalação they come to us without a word II, 2013-2023. Desde o momento em que contactamos com a obra, apreciamos uma encenação mediante um desenho instalativo que origina um percurso no qual sessenta e oito desenhos de peixes azuis, a tinta sobre papel, criam um espaço habitável que envolve o visitante. Concebido durante uma residência no Japão, para o Center for Contemporary Art, CCA Kitakyushu em 2013, o grande conjunto de desenhos de peixes azuis que compõem a instalação teve como inspiração um antigo dicionário japonês de peixes, com ilustrações desenhadas à mão e de cores primorosas, que a artista encontrou numa loja em San Diego, Califórnia. Segundo Joan Jonas:

 

That book has been my little bible in relation to drawing fish. So, I made an installation of one hundred drawings of fish in blue ink. From then on, I drew many of these fish over and over again, both in my studio and in my performances. [2]

 

O interesse de Jonas em celebrar o mundo aquático e estes seres, que apelida de sentient beings, e em querer saber mais sobre os mesmos, alia-se à preocupação e aviso da artista relativamente à fragilidade do mundo e respetivos ecossistemas, que habitamos com outras criaturas. Tendo como ponto de partida o dicionário ilustrado, a artista numa referência à pesca excessiva reflete sobre a quantidade de peixes que os japoneses consomem, aludindo a instalação ao facto dos oceanos estarem a ser esvaziados da vida que acolhem. Inspirada pelas ilustrações científicas do livro e interessada em reproduzi-las, Joan Jonas desenha diversos peixes repetidamente, ultrapassando o status de esboço e aproximando-o de um acto performativo. Peixe-leão; tubarão; peixe-remo; tainha; peixe-machado; moreia; peixe-gato (...) mergulhamos no cardume da artista e constatamos que são todos diferentes, autênticos retratos reveladores da identidade de cada um. Aparentemente idênticos, cada desenho mantém a sua autonomia enquanto obra de arte, criando no seu conjunto um ecossistema de experiências sensoriais e emotivas. Há uma componente íntima em they come to us II, através da qual Jonas revela-nos a atenção que confere num trabalho minucioso de investigação e de pesquisa de quem observa e reproduz, sempre com atenção à imagem. Dentro da instalação, seguimos as pinceladas enérgicas, espontâneas e imediatas das figuras flutuantes que a artista, recorrendo a tinta diluída – cujos traços escorrem pelas folhas – e a uma ferramenta particular - um longo pincel– pinta a uma certa distância do chão, obtendo desse modo um determinado alcance e escala de linha. For the drawings of one hundred fish, I wanted to explore a method of using ink and a brush. In this way, I suppose I might have been influenced by the Japanese method of making fast and immediate images. [3] Habilmente suspensos do tecto e a alturas diversas, destacamos a decisão curatorial em adaptar os sessenta e oito peixes ao espaço da galeria apresentando-os, enquanto grupo, não nas paredes, mas distribuídos pelo espaço - num plano horizontal - mediante um sistema simples e praticamente invisível de exibição, evocando a ideia de que estes peixes estão a nadar. Quais telas sem molduras que contornamos, observamos e lemos de vários ângulos e até do seu reverso, Jonas convoca o espaço oceânico para a sala de exposições, num prolongamento do espaço exterior, oferecendo ao visitante a possibilidade de atravessamento e de estar integrado na instalação, rodeado por estas criaturas que vindas do mar, o recebem.

A ligação à natureza e paisagem encontramo-la também no corpo de trabalho de Maria Paz, cuja conexão ao exterior e à terra são-nos particularmente evocadas através das grandiosas peças em cerâmica vidrada e seus possíveis desdobramentos metafóricos e materiais. Inscrevendo conhecimentos vernaculares e tácteis, ao mesmo tempo que evocam formas ancestrais de trabalho, as esculturas de Maria Paz revelam-nos o equilíbrio entre memória, tradição e imaginação. De destacar o modo como a artista se relaciona com a plasticidade e a maleabilidade de um material frágil, criando ao mesmo tempo obras enormes com escala e relação física. Numa combinação entre motivos figurativos e abstratos, nos quais predominam as cores vibrantes que introduzem uma abordagem objetual, lúdica e dinâmica ao conjunto, reconhecemos formas que identificamos com as tradições da olaria portuguesa: motivos marinhos, criaturas híbridas e monstros.

 

Vista da exposição Dueto, Joan Jonas e Maria Paz. © Renato Cruz Santos / Galeria Municipal do Porto

 

Distribuídas em equilíbrio perfeito com o espaço da galeria, num exercício de aparente simplicidade, as peças executadas nas oficinas do Convento Montemor-o-Novo e criadas a partir das ideias e desenhos de Maria Paz, apresentam-se sobre plintos - concebidos pela própria e executados por Kiko Pedras - cuja organicidade das formas as aproximam das esculturas. Desafiada a pensar o espaço expositivo, Maria Paz apresenta-nos as suas Monstras, (2023) que, dispostas entre as altas janelas e a cortina de toros de madeira da fachada exterior da Galeria Municipal, suscitam a curiosidade dos transeuntes, estabelecendo um diálogo com o jardim. Marionetas de alumínio, esculturas metálicas de cores fortes, cujas formas híbridas fantásticas e de cariz abstratizante expressam a afirmação do corpo emancipado e intersexual. Num gesto de liberdade como se as Montras, adquirem-se uma nova materialidade e um caráter bidimensional, a composição mural A receita do Húmus, 2023, revela-nos numa explosão de cores estas figuras híbridas e viscerais, criaturas quase aquáticas, que afirmam uma ideia de sexualidade.

Atravessando longitudinalmente quase toda a extensão do edifício, é no piso superior de secção triangular, que encontramos a instalação Rivers to the Abyssal Plain, 2021, de Joan Jonas. Explorando a paisagem, os fenómenos naturais e o oceano enquanto entidade poética, totémica e natural, a instalação, que inclui um conjunto de mais de setenta desenhos e projeção de vídeo, revela-nos - numa abordagem artística à investigação científica - as preocupações da artista com a água enquanto ecossistema múltiplo. Natureza, ciência e arte, cruzam-se na presente obra que teve como fonte de inspiração o trabalho de pesquisa do cientista Jeff Peakall sobre sistemas fluviais subaquáticos nos oceanos e as criaturas marinhas que neles habitam.

 

They have their own flora and fauna. Everything we know about these rivers is trough representations made by scientists through sonar mapping. Jeffrey sent me these representations and based on those I made about seventy-five large drawings of these underwater rivers. It became a drawing installation with a short video that includes a poem about the sea by Etel Adnan. It’s not at all about ecology or anything, it’s just a fascination. I love river systems; they’re like trees. The beauty of the systems and the branches and so on is amazing and interesting. [4]

 

Poético, o vídeo combina projeções de mapeamentos sonares de rios submarinos com filmagens realizadas no Aquário Vasco da Gama e imagens em que Joan Jonas num ato performativo- elaborando rituais, dançando e caminhando- recorre à praia como superfície de desenho, numa série de sequências acompanhadas pela leitura de um poema de Etel Adnan que descreve o mar e os rios como fonte de toda a vida e correntes intermináveis de energia. Numa extensão teatral da instalação, são-nos reveladas diferentes camadas de desenhos - através de um sistema de exposição das ilustrações semelhante ao da primeira instalação – com a criação de um corredor dentro do qual circulamos e observamos a série de aguarelas. Inspiradas no desejo da artista em conhecer os rios oceânicos identificamos, numa tensão constante entre abstração e figuração, a forma dos mesmos, assim como a presença de criaturas marinhas raramente vistas que povoam esses estreitos: sangue-vivos, águas-vivas, corais, anémonas, estrelas do mar, pepinos do mar, ouriços e polvos. No seguimento da instalação, dando continuidade à abordagem formal da exposição e estabelecendo um diálogo com a instalação de desenhos de peixes azuis do piso inferior, uma série de catorze desenhos a azul e branco de Maria Paz, São as histórias que elas me contam (I-XXXVIII),2023, contrasta com a explosão de cores das obras anteriores da artista. Movendo-se numa tensão entre abstração e figuração observamos os gestos livres, rítmicos e dinâmicos das figuras, numa relação de grande liberdade da artista com o desenho. Sobre folhas individuais de papel de jornal, em exibição na parede, reconhecemos desde uma planta carnívora; línguas; figuras orgânicas e indefinidas que se assemelham às criaturas marinhas de Jonas, até chegarmos às monstras que flutuando no espaço, numa composição de maior escala, torna-se no ponto de fuga da exposição, num convite para voltarmos atrás e revermos este Dueto.

 

 

 

Mafalda Teixeira
Mestre em História de Arte, Património e Cultura Visual pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, estagiou e trabalhou no departamento de Exposições Temporárias do Museu d’Art Contemporani de Barcelona. Durante o mestrado realiza um estágio curricular na área de produção da Galeria Municipal do Porto. Atualmente dedica-se à investigação no âmbito da História da Arte Moderna e Contemporânea, e à publicação de artigos científicos.

 

 

:::

 

 

Notas

[1] Inaugurada a 16 de setembro, Dueto estará patente na GMP até 19 de novembro de 2023.
[2] JONAS, Joan – “All the Stories Fish Carry”. In Joan Jonas: Next Move in a Mirror World. Dia Art Foundation, New York, 2023, p.147.
[3] JONAS, Joan – Idem, p.149.
[4] JONAS, Joan – “All the Stories Fish Carry”. In Joan Jonas: Next Move in a Mirror World. Dia Art Foundation, New York, 2023, p.158.



MAFALDA TEIXEIRA