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ANA PÉREZ-QUIROGAMOVO-ME EM TEMPO ELÉTRICOSISMÓGRAFO (HEROÍSMO) Rua do Heroísmo 318 4300-096 Porto 19 SET - 07 NOV 2026
I TempoA partida também é uma chegada. Encerram-se ciclos, iniciam-se outros. Consideremos como uma viagem esta exposição que Ana Pérez-Quiroga nos entrega no espaço do Sismógrafo. Dois tempos e um compasso a compõem. No primeiro tempo, a palavra escrita e falada traz a advertência e a poetização. Duas gravuras e duas serigrafias, numa mesma moldura, repetem as frases “o limite da arte é o limite da vida” / “the limit of art is the limit of life”. Escritas em círculo, aludem a uma ação de contorno na sua leitura. São as voltas da vida como arte, da arte como vida. Dar espaço à serendipidade da vida, mitigando as ideias fixas, como quem diz: “Nunca digas desta água nunca beberei”. Este provérbio, que a avó da artista repetia continuamente, como um mantra, designa a peça sonora na qual o som do mar e do rio pontua a voz da artista a dizer as palavras rio e mar, até se diluírem em vibrações. A dimensão afetiva e relacional estende-se às duas caixas em pele vermelha pousadas em dois plintos, nobilitando o espaço para guardar. Com gravações em letras douradas, lê-se: “You are her and she is you” (2024) e “you are here to risk your heart” (2024). Interpelações ao espectador que é confrontado com as ideias de que a identidade se constrói também no coletivo e na reciprocidade entre o “Eu” e o “outro”; e de que a entrega à vida pressupõe entregar o coração. No inteiro, no risco.
CompassoEm tons de azul, uma cortina de sarja - “Mover para fora #1” (2023) - divide os dois tempos e metaforiza a linha ilusória que se forma no horizonte, nesse toque aparente entre o céu e o mar. Este é um espaço liminar que teatraliza um estado de pausa para integrar, transformar e acomodar vivências em sabedoria, e para ganhar fôlego para um outro caminho.
II TempoPassado este portal de transição, a frase "O limite da arte é o limite da vida" (2026) surge num néon azul que se estende por 17 metros da parede. Cada palavra é separada por amplos intervalos, permitindo a performatividade do caminhar enquanto se lê. Vida e Arte surgem como percursos dependentes, pois criamos a partir do que experienciamos, imaginamos, observamos e sentimos. A arte não nasce fora da vida: dela provém e a ela regressa. E, podendo a arte ter como limite a vida, também persiste em procurar o que está além desse limite. E nessa busca incessante temos, por vezes, de nos demorar nesse espaço liminar onde a passagem não é simplesmente uma deslocação, mas a representação de uma transformação. E assim nos detemos na instalação "Enquanto derrete" (2024-2026), uma biovanitas (Basañez, 2022), parcialmente efémera, composta por dois cubos de gelo cristal, pousados numa estrutura de alumínio, que albergam no seu interior duas metades de maça, em bronze, e um coração de polímero banhado a cobre. Aqui prospera o tempo como agente artístico e performativo, onde a processualidade e a transformação são realçadas e constituem matéria de reflexão. O processo criativo integra a destruição sem contemplação de repetição, uma vez que a obra tem uma existência limitada pelo tempo de execução e vida útil do material utilizado. A instalação passa de objeto a acontecimento, onde a passagem do tempo, as condições atmosféricas e o calor dos corpos dos visitantes, assinam uma coautoria. Desse tempus fugit ocorre um desdobramento de ações: a partir do momento em que o gelo derrete completamente, a maçã (simbolicamente fruto proibido ou envenenado, de desejo e tentação) e o coração (fonte pulsante de vida) deixam de estar preservados. Expostos mesmo que compostos por materiais perenes, ficam à mercê da deterioração e da oxidação, num lento e contínuo esgotamento. Não lhes tocando, porém, a condição de maturação, apodrecimento e húmus. A efemeridade da obra remete-nos para a impossibilidade de conservarmos, eternamente, tudo o que amamos ou desejamos. A tecnologia, no entanto, permite a captação e o registo desses instantes que contribuem para a preservação da memória. Contudo, estamos perante um armazenamento "frio", uma vez que não é possível recuperar o acontecimento na sua forma original; este subsiste como espectral e "virtual". Numa ação performativa, a artista recorreu a uma máquina fotográfica para captar o derretimento dos cubos de gelo, de hora a hora, desde a sua chegada à galeria. O processo resultou na instalação "Magical Presence" (2026), composta por 24 polaroides. O clique transformou-se numa passagem na qual o instante foi fixado de forma imediata e sem resistência. O dispositivo fotográfico originou um arquivo, mas a vivência sensorial do processo não é passível de ser restituída. A existência tem, na verdade, esse predicado de ser um fluxo de energia e não um estado de permanência. Refere a artista que o tempo elétrico é "não escolher entre o que se fecha e volta a fechar-se e o que se desfaz uma única vez, mas viver dentro dos dois ao mesmo tempo, com uma pausa a meio do caminho, que não é nenhum dos dois" (2026 [2024], s.p.). Quer isto dizer que, paradoxalmente e simultaneamente, habita duas formas de temporalidade: a que remete para movimentos cíclicos e repetitivos como as rotinas, as estações, os hábitos, as memórias; e a que se caracteriza pelo irreversível como o envelhecimento, a morte e os acontecimentos únicos. Na verdade, vivemos permanentemente nesse lugar entre a perda e o retorno, entre o que recomeça e o que se esfuma para sempre. A pausa, como liminaridade, é o que o filósofo Byung-Chul Han (2020) caracteriza como espaço de transformação, alteridade e acontecimento, onde contemplar, refletir e observar se mostram como gestos de resistência e momentos de suspensão temporária face à dinâmica capitalista da circulação incessante de estímulos, bens e dinheiro. Vivemos em tempo elétrico. Todos. Consumidos pela voracidade do quotidiano, talvez a arte ofereça esse lugar onde nos podemos demorar, regenerar e transformar.
Sandra SilvaLicenciada em História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e mestre em Estudos Artísticos - variante Estudos Museológicos e Curatoriais, pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, com uma dissertação sobre a interligação entre arte e ciência. Dedica-se à investigação independente, com particular interesse pelos diversos temas da arte e curadoria contemporânea.
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Bibliografia Basañez, H. S. (2022). BioVanitas - Reflexiones en torno a la materialización del Tiempo. [Tese de doutoramento]. Universidade do País Basco/ Euskal Herriko Unibertsitatea (UPV/EHU) Byung-Chul Han (2020). The Disappearance of Rituals: A Topology of the Present. Medford, MA: Polity Press Pérez-Quiroga, A. (2026 [2024]). A exposição divide-se... [Folha de sala da exposição]. Sismógrafo.
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