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EXPOSIÇÕES ATUAIS


You, Me, Us [O, Hau, Ita; Tu, Eu, Nós], de Maria Madeira. Museu do Oriente, 2026. © Cortesia Museu do Oriente


You, Me, Us [O, Hau, Ita; Tu, Eu, Nós], de Maria Madeira. Museu do Oriente, 2026. © Cortesia Museu do Oriente


You, Me, Us [O, Hau, Ita; Tu, Eu, Nós], de Maria Madeira. Museu do Oriente, 2026. © Cortesia Museu do Oriente


You, Me, Us [O, Hau, Ita; Tu, Eu, Nós], de Maria Madeira. Museu do Oriente, 2026. © Cortesia Museu do Oriente


You, Me, Us [O, Hau, Ita; Tu, Eu, Nós], de Maria Madeira. Museu do Oriente, 2026. © Cortesia Museu do Oriente


You, Me, Us [O, Hau, Ita; Tu, Eu, Nós], de Maria Madeira. Museu do Oriente, 2026. © Cortesia Museu do Oriente


You, Me, Us [O, Hau, Ita; Tu, Eu, Nós], de Maria Madeira. Museu do Oriente, 2026. © Cortesia Museu do Oriente


You, Me, Us [O, Hau, Ita; Tu, Eu, Nós], de Maria Madeira. Museu do Oriente, 2026. © Cortesia Museu do Oriente


You, Me, Us [O, Hau, Ita; Tu, Eu, Nós], de Maria Madeira. Museu do Oriente, 2026. © Cortesia Museu do Oriente


You, Me, Us [O, Hau, Ita; Tu, Eu, Nós], de Maria Madeira. Museu do Oriente, 2026. © Cortesia Museu do Oriente

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LUISA FERREIRA

ARQUIVO:


MARIA MADEIRA

YOU, ME, US [O, HAU, ITA; TU, EU, NÓS]




MUSEU DO ORIENTE
Largo Vitorino Damásio, 4


14 AGO - 13 DEZ 2026


 

 

Nas franjas do tais, um emaranhado de linhas de algodão revela-nos o princípio da composição. A bordagem começara naquelas manchas de tecido bruto, que lhe adornam as pontas, enquanto causa e efeito. São o ponto de partida do conjunto, premonitórias da fisicalidade que as tornaria objeto, da moção que as animaria numa entidade significante. No trabalho de Madeira, a sua crueza também subsiste por si própria.

As obras vão-se dispondo por um conjunto de núcleos de paredes azul-bebé, a iluminação amarelada, por vezes a fazer escapar o foco das obras. A primeira de todas, Tii Kabas, causa-nos alguma estranheza. Uma divisão aberta, ao lado direito de uma primeira sala comprida, em que a proximidade das duas paredes opostas produz um sentido de clausura. Um conjunto de varas de madeira em bico pendem do teto, seguras por cordas, e apontam ao chão, em alturas diversas. Ao nível dos pés estão pequenas manchas de algodão bruto, cujas variações cromáticas vão diferindo entre si. Há uma intensidade contida nesses pedaços de madeira que emergem de cima, a violência de quem julga ou aponta um elemento frágil e inamovível, porque é aprisionado. Nos constrangimentos de um olhar moldado pelos cânones ocidentais, a simplicidade dos elementos transpõe-nos para uma estética povera (concretizada com mais força ainda na curiosa instalação seguinte, Well… No) cujas intenções, ainda que dependentes de um contexto histórico e geográfico específico, em boa verdade, não se afastam dos interesses de Maria Madeira. Para a artista timorense, é fundamental a confluência entre a arte e a vida, cimentando os contornos sociopolíticos das suas obras numa mitologia pessoal. O que vemos em Tii Kabas é, simultaneamente, a origem da constituição do tais (sendo as varas de madeira os teares que se servirão do tecido a que apontam), e uma alegoria para a condição feminina numa sociedade patriarcal (em Timor-Leste, ou no mundo).

O sentido desta instalação só nos é revelado à medida que vamos convivendo com o trabalho da artista: os motivos vão-se repetindo e reconfigurando. Ajudam-nos alguns textos e legendas explicativas, como manifestos de intenções. É exemplo disso a contextualização que termina a exposição, na sala em que o tais se concretiza num conjunto de bordados de uma beleza admirável. Aí, em primeira pessoa, emergem as palavras da artista, que decifram simbolicamente os elementos simbólicos da sua obra, como num desfecho fechado, para quem queira sair com respostas. As obras triunfam, por outro lado, no espanto, na profusão de cores, antinómico de uma literalidade evidente, passível de decifração (ou a que esta é secundária): evocam inusitados metabolismos (destacamos o conjunto Tais with Betel Nut, os dois Sem Títulos que terminam a primeira sala da exposição, a geografia corpórea de Crossing Bridges, ou a magnífica Foremothers Fingerprints, onde as texturas sobre a tela conduzem a uma aspereza baça, como um zoom aproximadíssimo sobre uma pequena prega cutânea), na sua intimidade cosmológica, quase espontânea, que se apropria do que a rodeia: o café, a luz do sol, as dedadas, o cabelo.

É um trabalho, no entanto, incrustado na cultura que cita e reformula, estranha, porventura, ao mero espectador ocidental, desconhecedor das especificidades e tradições de Timor-Leste. É, nesse sentido, consciente da sua procedência, enraizada localmente. Os exemplos mais significativos estão, não só nas múltiplas reconfigurações do tais, como, de modo mais evidente, numa instalação como 270+ Massakre Santa Cruz Nian, um memorial aos jovens mortos no Massacre de Santa Cruz em Dili, elaborado através de kaibuks, um ornamento tradicional para a cabeça em Timor-Leste que é, também, um símbolo de estatuto, conforme lemos numa das legendas.

 

You, Me, Us [O, Hau, Ita; Tu, Eu, Nós], de Maria Madeira. Museu do Oriente, 2026. © Cortesia Museu do Oriente

 

Ao peso funéreo desta instalação somos recordados da obra de Grada Kilomba, em que o sentido mitológico, ao invés de se apropriar de uma vivência concreta no espaço e tempo, procede e pretende abordar estas catarses da memória através de uma perspetiva universalista – O Barco e a simbologia da sua madeira queimada. Maria Madeira evoca o acontecimento diretamente, e neste sentido de concretude geográfica, parece-nos significativo o enquadramento da exposição no contexto mais alargado do Museu da Fundação Oriente, com quem a artista terá colaborado previamente em, pelo menos, duas exposições na delegação da fundação em Díli, Timor-Leste, e onde terão figurado algumas das obras que podemos ver, agora, em Alcântara – entre elas, Grupo Coral do Sol Nascente, apresentada em 2023, na exposição Ko’Alia Funan Funan (Conversa Floreada), ou Colonização, de 2019, e o bordado Timor-Leste, apresentados na exposição Fatin ida iha Loro-Matan (Um Lugar ao Sol), em 2022. O diálogo entre exposição e coleção é pertinente e fundamental, suscetível de contaminações. No trabalho de Madeira resiste-se, naturalmente, à mera etnografia – e ainda bem.

Esta «You, Me, Us [O, Hau, Ita; Tu, Eu, Nós]», elaborada a partir de uma residência artística no Hangar em Lisboa, apresenta-se, simultaneamente, como uma antologia do trabalho de Maria Madeira, e um pretexto para a mostra de novos trabalhos, constituindo uma oportunidade rara para descobrirmos o interessante trabalho de uma artista (a primeira representante de sempre de Timor-Leste na Bienal de Veneza, aliás, só em 2024) ainda pouco visto em Portugal.

 

 

 

 

Miguel Pinto


Nascido em 2000. Mestre em Jornalismo pela Universidade Nova de Lisboa, redigiu uma tese sobre a ética noticiosa no Portugal do século XVII e as suas interseções com uma mundivisão barroca. Licenciado em História da Arte, colaborou com publicações como Hyperallergic, Público ou Umbigo. Trabalha em comunicação. Escreve nas horas vagas.

 

 

 

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Catálogo da exposição em 2023-2024

Maria Madeira, Ko’Alia Funan Funan [Conversa Floreada], Dezembro 2023 a Janeiro 2024, Fundação Oriente, Dili, Timor-Leste.

 



MIGUEL PINTO