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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição Colapso, Silvestre Pestana, Galeria Municipal do Porto. © Lais Pereira


Vista da exposição Colapso, Silvestre Pestana, Galeria Municipal do Porto. © Lais Pereira


Vista da exposição Colapso, Silvestre Pestana, Galeria Municipal do Porto. © Lais Pereira


Vista da exposição Colapso, Silvestre Pestana, Galeria Municipal do Porto. © Lais Pereira


Vista da exposição Colapso, Silvestre Pestana, Galeria Municipal do Porto. © Lais Pereira


Vista da exposição Colapso, Silvestre Pestana, Galeria Municipal do Porto. © Lais Pereira


Vista da exposição Colapso, Silvestre Pestana, Galeria Municipal do Porto. © Mariana Silva


Vista da exposição Colapso, Silvestre Pestana, Galeria Municipal do Porto. © Lais Pereira


Vista da exposição Colapso, Silvestre Pestana, Galeria Municipal do Porto. © Mariana Silva

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ARQUIVO:


SILVESTRE PESTANA

COLAPSO




GALERIA MUNICIPAL DO PORTO
Palácio de Cristal Rua D. Manuel II
4050-346 Porto

14 MAR - 28 JUN 2026


 

 

A exposição Colapso, de Silvestre Pestana, inscreve-se numa linha de continuidade com a prática do artista, onde a experimentação tecnológica e a reflexão crítica sobre os sistemas de mediação se entrelaçam de forma persistente. Intensifica-se uma consciência de limite: limite dos sistemas, das imagens, da própria ideia de progresso que durante décadas sustentou a relação entre arte e tecnologia.

A partir da poesia visual que constituiu o início do percurso artístico de Silvestre Pestana, na década de 1960, esta exposição, muitos anos depois, recupera e reinscreve esse momento inaugural numa gramática contemporânea. No piso superior da Galeria Municipal do Porto, uma sala inteira de luzes LED em formato de sinais avisa, quem entra, para um colapso. O artista, com a curadoria de João Laia, cria um sistema de linguagem em permanente reconfiguração, onde cada palavra é já o indício de uma possível rutura.

Desde a sua entrada, o espaço expositivo organiza-se como um campo de forças onde diferentes regimes de visibilidade se sobrepõem. Estruturas luminosas, inscrições gráficas e dispositivos eletrónicos articulam-se numa composição que recusa a linearidade e a estabilidade. Não existe uma narrativa unívoca, mas antes uma constelação de sinais que exigem uma leitura fragmentada e descontínua. A minha experiência não será, naturalmente, igual à do visitante seguinte ou anterior a mim, que se tiver passado mais desatento ou com menos tempo, poderá não ter compreendido a variedade de palavras que cada sinal luminoso transporta. Esta recusa do discurso fechado não é apenas formal, corresponde a uma posição crítica perante a saturação informacional que caracteriza o presente.

“Furacão” e “Amargo” surgem como as primeiras inscrições que vi ao entrar na exposição, marcando desde logo uma tonalidade afetiva que contaminou o meu percurso. Não são palavras neutras, transportam uma carga sensorial, quase física. Em diferentes estruturas, estes termos instauram uma espécie de pré-disposição, como se o colapso se anunciasse já no plano da linguagem.

Noutros sinais, a articulação entre texto e figura introduz uma dimensão coreográfica. O termo “Ser”, acompanhado por três peões vermelhos estáticos precede “vestígio”; e “ruptura”, onde um peão corre sem sair do lugar, uma corrida suspensa, tautológica, que encena a impossibilidade de fuga. Ainda no mesmo sinal, “Cidade” surge como pano de fundo implícito desta circulação interrompida, remetendo para um espaço urbano onde o movimento é contínuo, mas nem sempre eficaz.

A sequência de palavras, dispostas em estruturas adjacentes — “poema, dizer, amargo”; “neurónio”; “rua; “noite, colapso”, e “cosmos, furacão” — constrói uma cadeia associativa que oscila entre o íntimo e o cósmico, entre o corpo e o sistema. Não há hierarquia evidente: tudo parece coexistir no mesmo plano, como se a linguagem tivesse perdido a sua capacidade de organizar o mundo de forma estável. Tudo existe em harmonia, num caos permanente.

Num outro sinal, mais complexo, sobre fundo azul, a palavra “SEDE” emerge lateralmente. No topo, “rio” inscreve-se num retângulo intermitente; abaixo, “não”. A substituição contínua dos termos “luar”, “tua”, “VOZ”, introduz uma dinâmica de aparecimento e desaparecimento que desestabiliza qualquer tentativa de fixação semântica. A palavra “VOZ”, em particular, expande-se verticalmente, acompanhada por labaredas avermelhadas, que parecem crescer e querer ocupar o espaço. “OLHAR”, colocado no centro de um dispositivo com setas laterais, explicita aquilo que toda a instalação já vinha sugerindo: a implicação do espectador. O nosso olhar não é exterior; é convocado, dirigido e recondicionado. Ver torna-se um ato situado, inscrito num sistema que orienta e, simultaneamente, limita a perceção.
“fio”, “AREIA”, “QUEBRA” introduzem uma materialidade precária, evocando elementos que se desfazem, que escapam à fixação. A repetição de “VÉNUS” e a aceleração de “MARTE” instauram um ritmo quase frenético, contrastando com a presença de “atmosfera” e, logo depois, “abismo”, acompanhado de um desenho que evoca a água, um corpo em movimento, que desenha a ondulação das ondas do mar, que vão e voltam.

Num fundo negro, as palavras “LOUCA” e “quimera” precedem “inundação”, em azul sobre rosa, seguida de “seco” e, em modo de conclusão: “fóssil”. Esta sequência sugere um arco temporal condensado: do excesso à aridez, da fluidez à petrificação. Por cima, “SORRISO”, “brisa” que é enquadrada por pequenos pixels azuis que soltam gotas, e “alegria”, introduzem uma tonalidade aparentemente leve, quase dissonante, que não anula, mas antes intensifica a ambiguidade do conjunto.

A presença de “Sol” e “CO2”, acompanhados por figuras de peões em estados distintos, movimento e espera, introduz uma dimensão explicitamente política, ainda que sem recorrer ao discurso direto. A referência à crise ambiental surge aqui integrada no fluxo geral de signos, como mais um elemento de um sistema em tensão. No fundo da sala, na vertical e lembrando um semáforo, surge a vermelho a palavra “AUSÊNCIA”, que se impõe como um eixo de leitura. Em tom de aviso e como sinal de perigo, é sobreposta por “REP-ROG-RAM-ADA”, em azul-ciano, a qual convoca a ideia de reconfiguração contínua, de um sistema que se reescreve continuamente. Dão origem à figura de um peão, que corre, mais uma vez, incessantemente, no mesmo lugar. O sinal de paz surge, brevemente, antes de ser absorvido por esta dinâmica de repetição. Multiplica-se o peão: uma multidão em movimento perpétuo, incapaz de sair do mesmo ponto.

É neste ponto que a obra revela com maior clareza a sua dimensão crítica. O que está em jogo não é apenas a falha de um sistema tecnológico, mas a exposição de uma condição contemporânea marcada pela sobrecarga, pela repetição e pela impossibilidade de pausa. A linguagem, longe de organizar o mundo, torna-se sintoma da sua fragmentação. Parece não existir tempo para nada, embora seja isso tudo o que nos resta.

Escrever sobre esta exposição implica, por isso, aceitar a sua resistência à síntese. Mais do que propor uma leitura fechada, Colapso constrói um espaço onde o sentido se produz de forma instável e provisória. E é precisamente nessa instabilidade que reside a sua força: na capacidade de tornar sensível um estado de pré-ruptura que define já o modo como habitamos o presente.

 

 

*

 

 

Talvez este texto possa assumir uma cadência de poema visual, deixando que a própria estrutura e o ritmo das frases criem pausas, deslocamentos e tensões, de modo que o sentido surja não apenas no que é dito, mas na forma como se organiza no espaço da página. Deste modo, eis a minha tentativa de poema visual:

 

 

Num dos sinais mais complexos,

sobre fundo azul,
                SEDE


 

emerge lateralmente, quase furtiva

no topo:
    
              rio
          
                                (intermitente)

abaixo:
    
              não

— substituição contínua —

  luar
    
              tua
      
                    VOZ

(aparece / desaparece / reaparece)

VOZ
      
                    VOZ
          
                                          VOZ

expande-se
      
                     verticalmente


labaredas avermelhadas

              sobem

como se a linguagem

ganhasse corpo

      intensidade

          quase

            violência

 

 

 

:::

 


Leonor Guerreiro Queiroz

(Porto, 1999) é artista plástica e integra, atualmente, o Mestrado em Artes Plásticas, na ESAD.CR. Formada em música clássica (fagote) pelo Conservatório de Música do Porto e licenciada em Artes Plásticas (Pintura) pela FBAUP, expõe regularmente desde 2015 na companhia de artistas estabelecidos. Organizou projetos e mesas redondas com personalidades do meio artístico internacional, tendo desenvolvido publicações em revistas de arte e teatro. Trabalha como professora convidada na DTK - Fine Arts School in Bærum (Noruega), desde 2023 e com a artista Paulina Olowska, desde 2020 na Academia de Belas Artes de Praga. Na área da escrita curatorial colabora, desde 2024, com outros artistas e curadores, escrevendo textos de apoio a exposições e reflexões sobre as mesmas.

 



LEONOR GUERREIRO QUEIROZ