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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição Maria José Oliveira, Eu que já fui eu, MNAC, 2026. © Ana Isabel Antunes.


Maria José Oliveira, em primeiro plano Princípio (anos 1980). Exposição Eu que já fui eu, MNAC, 2026. © Ana Isabel Antunes.


Maria José Oliveira, à esquerda Futuro (2008), à direira Manga de casaco (1995). Exposição Eu que já fui eu, MNAC, 2026. © Ana Isabel Antunes.


Maria José Oliveira, ao centro Casaco (1998), à direita Manga de casaco (1995) e Corpo costelas (1996). Exposição Eu que já fui eu, MNAC, 2026. © Ana Isabel Antunes.


Maria José Oliveira, à esquerda Corpo (1999), ao centro Casaco (1990), à direita Escondido (1995). Exposição Eu que já fui eu, MNAC, 2026. © Ana Isabel Antunes.


Maria José Oliveira, em primeiro plano Para Gina Pane e Frida Kahlo (2002). Exposição Eu que já fui eu, MNAC, 2026. © Ana Isabel Antunes.


Maria José Oliveira, à esquerda Escultura habitada (1998), à direita Sistema muscular (2004). Exposição Eu que já fui eu, MNAC, 2026. © Ana Isabel Antunes.


Vista da exposição Maria José Oliveira, Eu que já fui eu, MNAC, 2026. © Ana Isabel Antunes.


Maria José Oliveira, Transformações 1 e 2 (1995). Exposição Eu que já fui eu, MNAC, 2026. © Ana Isabel Antunes.


Vista da exposição Maria José Oliveira, Eu que já fui eu, MNAC, 2026. © Ana Isabel Antunes.


Maria José Oliveira, Mas onde nós estamos é a luz (2003). Exposição Eu que já fui eu, MNAC, 2026. © Ana Isabel Antunes.


Maria José Oliveira, no chão Duas gavetas de arquivo (1996/1999). Exposição Eu que já fui eu, MNAC, 2026. © Ana Isabel Antunes.


Maria José Oliveira, à esquerda Sem título (2003). Exposição Eu que já fui eu, MNAC, 2026. © Ana Isabel Antunes.


Vista da exposição Maria José Oliveira, Eu que já fui eu, MNAC, 2026. © Ana Isabel Antunes.


Maria José Oliveira, Veste (2019-2020). Exposição Eu que já fui eu, MNAC, 2026. © Ana Isabel Antunes.

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ARQUIVO:


MARIA JOSÉ OLIVEIRA

EU QUE JÁ FUI EU




MNAC - MUSEU DO CHIADO
Rua Serpa Pinto, 4
1200-444 Lisboa

15 MAI - 04 OUT 2026

Como era no princípio (agora e sempre)

 

“A sua arte não é uma arte da formação, mas da desformação. Não se parte da forma na sua exuberância, mas de um momento de declínio e morte. Fixa-se esse momento como o de um trânsito involutivo para uma fase anterior e, paradoxalmente, atinge-se a origem. A origem é o tempo mítico em que nunca se morre.”

 

 

José Gil descreve-o de uma forma lapidar [1], retirando-me o peso de como introduzir, sem preâmbulos, a obra de Maria José Oliveira (n. 1943) que podemos (voltar a) ver na Galeria Capelo Norte do MNAC, até 4 de Outubro. Com curadoria de Paula Parente Pinto, o título Eu que já fui eu poderá indiciar uma seleção de obras retrospectiva, no entanto, a inclusão de trabalhos criados recentemente oferece uma leitura que, ao invés de revisionista, propõe a sobreposição dos tempos de Maria José Oliveira numa possibilidade de desígnio da sua longa reflexão sobre o (seu) corpo. Não nos poderá ser indiferente a vida já longa de Maria José, hoje com 83 anos. É inevitável reconhecer como a passagem do tempo, a degeneração do(s) corpo(s) e a sua aproximação natural à morte – temas que desde sempre estão presentes na sua prática artística –, são-o agora especialmente tocantes e reveladores, o que confere à exposição uma atmosfera “onde os sons e os silêncios se tornam diferentes e esquecidos”.

Assim o escreve na sua letra miúda em Semente (2026), o desenho-poema impulsionador da mostra e que é composto por várias matérias – tinta, grafite, pão, galhos, papel –, semeado por palavras que torneiam formas de raízes, esqueletos, artérias ou ramos. Se, numa primeira percepção, as palavras parecem constituir-lhes uma crisálida ou a figuração de uma aura em seu redor, noutra parecem formigas atraídas pela putrefação das matérias para lhes ir buscar o alimento.

Essa dualidade entre as estruturas que sustentam a (formação da) vida e o seu estado de decadência – contínuo, perpétuo, porque presente na obra de arte –, capaz de remeter tanto a uma fase terminal como primordial, denota uma concepção do mundo muito crua mas indubitavelmente serena. O que é notável ao longo da sua carreira é que estas “estruturas” adquirem as mais diversas concepções, figurações e significados. Podem ir, por exemplo, desde uma gravura datada de Adão e Eva danificada por bibliófagos (Fim de Jardim, data desconhecida), ao uso de secreções e fluídos corporais para a criação de obras – sémen, sangue, leite materno – (Vaso Sagrado, 1996/1999; Corpo Contentor, 2023), passando pelo que define formal e alegoricamente o corpo humano (Sistema Muscular, 2004; Coluna Vertebral ou O princípio do Mundo, 2021).

 

Maria José Oliveira: em primeiro plano, Sistema Muscular (2004); ao fundo, à esquerda Spring Time. Adolescência (2001), à direita Corpo (1999). Exposição Eu que já fui eu, MNAC, 2026. © Ana Isabel Antunes.

 

A estrutura enquanto momento fundador e original – a partir do mistério que são a História e a Ciência do que é ser vivo (A história em continuidade, 1980; Cérebro, 1997) –, dá-se pela reflexão sobre o corpo mortal para procurar o que é comum à Humanidade. É assim que Maria José Oliveira nos entrega o mito sem o querer, composto não por deuses – diz-nos que “o religioso e o rito são pequenos lapsos” –, antes por ausências que têm o dom de não o serem por falta, mas por se se esperarem (e)ternamente (Mais perto de Ti, 2004). O corpo inteiro raramente se permite aparecer senão através dos seus indícios, marcas, fragmentos e extensões. Ele surge em negativo “sabendo cada espaço”, seja em relação a si mesmo – o da mão (No Princípio Era a Concha da Mão 2, 1978-2026), o do braço (Manga de casaco, 1995; Antebraço, 2014), o do torso (Corpo, 1999; Casaco, 1998), o do seio e o do ventre (Corpo Contentor, 2023); seja em relação aos objetos que lhe são prolongamento vital – o da taça para beber (Vaso sagrado, 1996-1999), o do talher para comer (Talheres, 1995; Futuro, 2008; A Colher na Boca, 2008) o da veste para proteger (Casaco, 1990; Spring Time, 2001; Veste, 2019-2020). O corpo para Maria José é contentor e nunca se limita à película superficial ou à representação anatómica do milagre que ele é. O corpo (da sua obra) é animado ora por um esvaziamento que nutre, ora por um enchimento fértil, como o movimento da respiração. É necessário esse adentramento.

 

Maria José Oliveira, Futuro (2008) [Pormenor]. Exposição Eu que já fui eu, MNAC, 2026. © Ana Isabel Antunes.

 

Caminhamos assim num percurso de quatro salas e um corredor, onde a arte povera de Maria José oferece-nos um histórico de uma vida possível utilizando materiais humildes e pobres, alguns muito precários. O barro, o pó, o óxido de ferro, o papel artesanal, a tela crua, o fio, o carvão, a casca de ovo, a tripa, assim como o fogo (o papel queimado, a cera), o ar (a humidade, a corrente de ar que faz mover as obras suspensas), a água (sal) e a terra (fósseis, minerais), nas suas variantes mutáveis, dialogam também com objetos encontrados, herdados ou oferecidos. O que sobra de uma existência material cumprida está disponível para recriar significados para além daqueles que justificaram o seu quotidiano. Interessada na viagem das matérias até à perda das suas funções primeiras e pela força de terem “sobrevivido a um tempo que já não existe mas que continuamos a transportar” [2], Maria José constrói com a sua memória e afectos, celebrando a transformação, o desvio e o acidente como possibilidades de resistência.

Da sua fra(n)queza, são materiais que têm a nobreza do princípio da criação, que desde cedo Maria José estimou com a aprendizagem e apropriação de saberes antigos provenientes da olaria e do fazer com as mãos, em simbiose com as práticas da escultura, cerâmica, joalharia, instalação, desenho e performance, em processos “mais interessados na invenção enquanto contemplação inteligente da natureza, sedimentada no tempo e na lembrança, do que em qualquer conquista original individualizada”, salienta Paula Parente Pinto no texto curatorial da exposição [3]. Percebe-se, desde logo, que nenhuma vaidade perpassa os objetos de Maria José. Ei-los, ali, chegados ao ponto do não retorno. Não lhe interessa a reconstituição ou a manutenção do seu auge. Os cromatismos neutros, térreos e ocres da sua obra assim o demonstram, desbotados e gastos remetendo-os a uma época sem tempo, ancestral (não obsoleta), onde o desgaste e a patine são bem-vindos e sinais de conhecimento. O abatimento do pigmento e da forma agem em sentido contrário ao do desenvolvimento do espírito que, por sua vez, é alimentado por um “branco leitoso”, rico.

 

Maria José Oliveira, Cristais (2026). Exposição Eu que já fui eu, MNAC, 2026. © Ana Isabel Antunes.

 

Do branco, carregado de luz, Cristais (2026) devolve-nos, no fim da exposição e por breves momentos apenas, o brilho e a esperança. Uma salina sobre pano cru nasce do chão, uma protuberância que resplande juventude no caminho gasto pela velhice. A Semente – cápsula que contém uma vida latente, contentor de imortalidade e intemporalidade (Árvore Escondida, 1980) –, aguarda pelas condições ideais para germinar neste monte de sal luminescente, que nos ilude ao ponto de acharmos ser possível cristalizar a condição temporal do nosso corpo, congelando os seus limites físicos e biológicos.

Na distância nula entre o óvulo fecundado que a semente é e a origem de que nos fala José Gil, Maria José pensa um eu já fora de si. Apesar da conjugação pretérita do título da exposição, não se dirige a um passado nem tão pouco a um tom saudosista. A sua certeza advém de um sentido de herança que, como nos demonstra, não é material. É potência, esperança e desejo. Talvez seja aí que reside a eternidade.

Eu que já fui eu está, assim, longe de ser uma nostalgia ou uma negação: é um porvir que celebra o “grão futuro” em que o corpo – sempre o corpo – se tornará. O legado de Maria José Oliveira permanece à mercê do Mundo num percurso entre a memória do que será e a expectativa do que foi. Imaginemos. Estamos vivos.

 

 

Cláudia Handem

(n. 1992) Licenciada e mestre em Arquitetura pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, e licenciada em Artes Plásticas - Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Articula a atividade laboral na área da arquitetura e design de interiores, com a prática artística no campo do desenho e da pintura. Escreve, de forma independente, sobre exposições de arte.

 


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Notas

[1] José Gil, "A cosmogonia estética de Maria José Oliveira", em Maria José Oliveira - 40 Anos de Trabalho, Sistema Solar, p. 36, 2017.
[2] Paula Parente Pinto no texto curatorial da folha de sala, 2026.
[3] Ibid.

 

 



CLÁUDIA HANDEM