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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição Yayoi Kusama: 1945 — Hoje, Museu de Serralves. © Filipe Braga


Vista da exposição Yayoi Kusama: 1945 — Hoje, Museu de Serralves. © Filipe Braga


Vista da exposição Yayoi Kusama: 1945 — Hoje, Museu de Serralves. © Filipe Braga


Vista da exposição Yayoi Kusama: 1945 — Hoje, Museu de Serralves. © Filipe Braga


Vista da exposição Yayoi Kusama: 1945 — Hoje, Museu de Serralves. © Filipe Braga


Vista da exposição Yayoi Kusama: 1945 — Hoje, Museu de Serralves. © Filipe Braga


Vista da exposição Yayoi Kusama: 1945 — Hoje, Museu de Serralves. © Filipe Braga

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ARQUIVO:


YAYOI KUSAMA

YAYOI KUSAMA: 1945-HOJE




MUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA
Rua D. João de Castro, 210
4150-417 Porto

27 MAR - 29 SET 2024


 

 

Abóboras; redes; polka dots; quartos espelhados, são apenas alguns dos motivos da linguagem artística, singular e vanguardista, colorida e vibrante de Yayoi Kusama (1929) que podemos descobrir em Serralves na exposição Yayoi Kusama: 1945-Hoje. Com curadoria de Doryun Chong e Mika Yoshitake, com a colaboração de Isabella Tam e Filipa Loureiro, a retrospectiva, a maior de sempre dedicada à artista, conduz-nos por quase oito décadas de carreira de Kusama revelando-nos a amplitude de movimentos e linguagens artísticas da sua prática. Reunindo pinturas, esculturas, performances, imagens em movimento, instalações grandiosas e material de arquivo, a exposição organiza-se segundo seis temas que se interrelacionam – Infinito; Acumulação; Conectividade Radical; Biocósmico; Morte e Força de Vida - reveladores da profundidade e complexidade do pensamento filosófico e artístico de Kusama e que se entrelaçam com a sua própria biografia. Ícone cultural do século XXI, convertida num fenómeno de massas devido ao caráter imersivo das suas obras e influência dos novos media e publicidade, a pergunta impõe-se: Quem é Kusama?

A resposta é-nos desvendada, como nota introdutória, à medida que observamos algumas das pinturas, desenhos e colagens que a artista produziu no género do autorretrato. Reflexo da própria artista, mesmo nas criações onde a representação de si mesma é menos evidente, o corpo de trabalho que compõe a secção Autorretrato, género que ocupa um lugar de destaque ao longo da sua extensa carreira, capta a amplitude e variedade de estilos de Kusama e da sua prática, de alguém que continua a experimentar o que é, e o que sente. Cobrindo uma extensão de setenta anos, de 1950 a 2020, não se tratam de autorretratos convencionais, de representações da artista como tal, de imagens espelhadas e lúcidas, antes de símbolos de topografia psicológica, representações do seu interior e estados de alma. Alternando entre o universo monocromático e a saturação de cores vibrantes e alegres; entre colagens, assemblages, figuração e abstração, destaquemos uma das pinturas mais antigas presentes na exposição, Autorretrato,1950, pintada durante a ocupação americana no Japão, num período em que Kusama lutava para encontrar a sua expressão individual. Em tons escuros, o retrato surrealista da artista como um girassol em tom de pele rosa e envolvido por um vórtex, que flutua sobre um par de lábios, afirma-se como uma revelação e o anúncio de um motivo visual que será recorrente ao longo de toda a sua obra: o círculo embrionário do eterno, do infinito, símbolo de unidade da humanidade com o cosmos.

A exploração do Infinito e da Acumulação por Kusama, enquanto estilos inovadores - formalmente iniciados nos finais da década de 50 e início dos anos 60 nos Estados Unidos - e a recorrência destes temas e motivos na sua linguagem artística, são-nos revelados na primeira secção dedicada à exposição. Inspirada pela observação das correntes do Oceano Pacífico, durante o seu primeiro voo do Japão para os EUA em 1957, a artista inicia aquela que será uma das mais reconhecidas séries de pinturas do seu corpo de trabalho, Infinity Nets, de que é exemplo a obra em exibição Infinity-net 2, 1958. Preenchido por pinceladas que parecem mover-se num ciclo infinito, o óleo sobre tela testemunha uma mudança na prática artística de Kusama - dos desenhos e pinturas surrealistas para telas abstratas e monocromáticas que gravitam em direção ao sublime - como reação ao auge do expressionismo abstrato que então vigorava em NY. Observamos os gestos rápidos e a liberdade da pincelada de Infinity-net 2, a obscuridade lavada da obra em que à superfície cinzenta da base se sobrepõe uma camada clara e espessa de óleo branco, criando um padrão infinito de rede que parece estender-se para além do plano da imagem, sugerindo um potencial de expansão que nos conduz à essência de Kusama: a da obliteração. Evoluindo para formas mais sublimes, abstratas e efémeras, o padrão de redes infinitas de Kusama é-nos revelado em pinturas posteriores realizadas no Japão: The Sea in the Evening Glow (Facing Imminent Death),1988; Accumulation of Stardust, 2001 e Transmigration, 2011. Em tons de verde elétrico e azul marinho sobre um fundo rosa fluorescente, a tinta entrelaça-se pelos quatro grandes painéis de forma interminável e repetitiva, criando efeitos óticos e ilusões visais, numa expansão infinita de cor e espaço. Concebida em 2011, ano do terremoto e tsunami de Tohoku que desencadeou o desastre nuclear de Fukushima, o tom de verde néon da pintura remete, segundo Mika Yoshitake, para a radiação invisível, mas muito palpável no Japão nesta altura, numa obra que é uma homenagem a todos as almas que partiram e cujo título, Transmigration, provêm do conceito budista de transgressão da vida física.

Versão escultórica de Infinito destacamos na mesma sala o núcleo dedicado a Acumulação, série que desenvolve a partir de 1962 e que se impõe pela sua natureza artesanal e obsessiva. Evocando rebentos, tumores e falos, centenas de protuberâncias - bolsas de tecido com enchimento, cosidas à mão e pintadas pela artista – pendem, multiplicando-se e espalhando-se sobre objetos quotidianos e mobiliário doméstico, cuja função desaparece, em criações escultóricas de cariz biomórfico. A obsessão por formas fálicas e comida que integram as acumulações de Kusama, surge como resposta da artista e tentativa de encarar o seu medo face às compulsões sexuais e alimentares resultantes da cultura de consumo e contracultura dos anos 60 nos EUA. Combinando o grotesco e o lúdico, observamos manequins, sapatos de salto alto e cadeiras dominadas por falos, em obras da década de 60 como Phallic Girl, Golden Shoes, Untitled Accumulation e Untitled Chair, num desejo compulsivo de acumulação e multiplicação em que Kusama continuará a trabalhar expandido a sua visão artística, conforme testemunha a obra de 1980 Accumulation of Hands. Em destaque no centro da sala de exposições, a instalação escultórica de grande escala The Moment of Regeneration, 2004, concebida em tecido pintado sobre madeira, impõe-se pela organicidade do conjunto de formas serpenteantes vermelhas e indisciplinadas que emergem da terra quais tentáculos, numa obra que se revela como uma evolução das esculturas em tecido da década de 60.

Prosseguindo, observamos na segunda galeria da exposição em exibição numa parede, qual arquivo documental, um conjunto de cartazes, fotografias, flyers e press releases de finais da década de 60, que contextualizam e afirmam o caráter ativista e político de uma prática centrada na ação pública e performance. Adotando uma postura inconformista e provocadora na luta pelos direitos civis e contra a Guerra do Vietname, estereótipos raciais e de género, destacamos desse período e em exibição na exposição, os filmes experimentais de cinema expandido, Kusama’s Self Obliteratiom (1967) e os happenings de 1968, The Anatomic Exploasion, em que corpos nus surgem cobertos de bolas pintadas num gesto de auto-obliteração, de igualdade e de libertação. Como uma extensão dessas práticas performáticas, a instalação Self-Obliteration (1966–74), numa combinação perfeita entre pintura e escultura, apresenta um ambiente onde todos os elementos – manequins, mobiliário, frutas e plantas - se apresentam totalmente cobertos por padrões multicoloridos de redes infinitas. Expressando a ideia de conetividade radical entre os seres humanos e entre estes e o meio envolvente, a artista procura demonstrar na presente instalação como todos estamos infinitamente conectados de forma igualitária, fazendo parte de uma mesma unidade: Polka dots can't stay alone. When we obliterate nature and our bodies with polka dots we become part of the unity of our environments.

Metáfora do sol, da terra e da lua, bem como dos indivíduos na teia da criação, as bolinhas que reencontramos noutras obras da artista, colonizam-se sobre a superfície de três esculturas de 1986, Flower, Black Flower e Pollen. em que bolsas de tecido dão origem a figuras biomórficas, formas vegetais monstruosas e de cariz sexual, numa alusão ao interesse e conexão de Kusama com a vida orgânica e a natureza. Inspirada pela zona rural de Matsumoto, onde a sua família possuía um viveiro de plantas, a ligação à terra e pesquisa pelos ciclos da vida são predominantes na sua prática artística, conforme testemunham os trabalhos pictóricos da década de 50 - The Moon; Screaming Girl e Seed -, as pinturas de motivos florais e botânicos dos anos 80 e 90, e as assemblages boxes Monnlit Bedding, 1988 e Curtain Rising, 1994, homenagem a Joseph Cornell, que evocam formas vegetais e ovos num ninho dominados por bolinhas e redes infinitas. Através da sua relação com a natureza, a artista desenvolve uma visão cósmica do Universo presente nas imagens abstratas de desenhos celulares diminutos Flower, 1985; First Act at Ocean’s Bottom,1994; Dream of the Sea 1994 e na obra pictórica de grandes dimensões Imagery of Human Beings, 1987, imagem de unidade cósmica que expressa a sua visão de existência interconectada. A importância do biocósmico no seu trabalho afirma-se pela presença de Pumpkins, 1998-2000, motivo que desenvolve desde a infância e reflexo do seu alter ego, esculturas idiossincráticas e de superfícies onduladas, revestidas pelo padrão de bolinhas que gradualmente se reduzem e ampliam, numa mudança de escala do celular para o cósmico.

Ainda no segundo piso da exposição, em destaque numa pequena sala, encontramos o núcleo dedicado à Morte, temática constante na obra e vida de Kusama, marcada por problemas de saúde mental e pela destruição e devastação do Japão durante a Segunda Guerra Mundial, conforme testemunha a pintura abstrata de 1954 Atomic Bomb. No mesmo espaço, suspensa sem vida e caindo no chão, a instalação escultórica Dead of a Nerve, 1976, composta por um único tubo em tecido sobre o qual pinta bolas negras como forma de expressar o abismo profundo da depressão em que se encontrava nesse período, revela a importância da arte como fonte de sobrevivência, de cura, de poder e de renovação.

A arte como Força de Vida que impulsiona e regenera a artista e a sua prática é-nos revelada na última secção da exposição onde observamos uma das suas mais prolíficas séries de pinturas, My Eternal Soul, iniciada em 2009 e concluída em 2021. Dispersas pelas paredes da sala, as pinturas acrílicas cujas composições não apresentam uma orientação fixa, atraem-nos pela explosão de cores vibrantes - que preenchem todas as superfícies das telas – pela diversidade de temas e motivos, que incluem redes infinitas e polka dots, bem como figuras primordiais, folhas, conchas, rostos de perfil e formas amebianas. Afastando-se da austeridade e abstração anterior, as pinturas em exibição revelam pela sua espontaneidade, novas formas, padrões e cores, o renascimento e força de vida de uma artista que numa fase tardia da carreira se reinventa. Destaque ainda, em exibição numa pequena sala no mesmo piso, para o grupo de pequenos quadros coloridos de estilo simplista e semi-representacional, datados de 2004 e que deram origem à serie My Eternal Soul, que em cenas que fundem a vida humana e vegetal, refletem a passagem da artista para o estilo figurativo. No centro da sala, como se os motivos surrealistas das pinturas de Kusama adquirem-se formas esculturais, observamos o conjunto colorido e suave Discovering Love inside the Heart, 2022, versão renovada das acumulações em tecido, e a instalação de chão Clouds 2019, esculturas mercuriais cujo brilho metálico reflete a atmosfera envolvente.

O desejo de expansão, de infinitude do tempo e espaço, e de obliteração de Kusama encerram a exposição, mergulhando-nos na grandiosa e arquitetural instalação Dot’s Obsession - Aspiring to Heaven’s Love, 2022, último trabalho da série Infinity Mirror Rooms concebido pela artista. Percorremos o espaço preto dominado por bolinhas brancas de dimensões variadas - que se estendem pelo chão, paredes e tecto - e por enormes balões insufláveis, envolvendo o visitante numa experiência física e visual. Dentro do espaço arquitetónico somos conduzidos a um ambiente cúbico espelhado repleto de balões de vinil, num verdadeiro horror vacui. Integrando o macro e o micromos, numa fusão entre interior e exterior, caminhamos pelo caleidoscópio de reflexos infinitos e de pontos que se repetem e expandem para além do tempo e do espaço e que nos conduzem, como uma nota final, à essência de Kusama: a obliteração.

 

 

 

Mafalda Teixeira
Mestre em História de Arte, Património e Cultura Visual pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, estagiou e trabalhou no departamento de Exposições Temporárias do Museu d’Art Contemporani de Barcelona. Durante o mestrado realiza um estágio curricular na área de produção da Galeria Municipal do Porto. Atualmente dedica-se à investigação no âmbito da História da Arte Moderna e Contemporânea, e à publicação de artigos científicos.

 

 

 



MAFALDA TEIXEIRA